Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

Na Antártida também ninguém te ouve gritar

 

"The Thing"

 

MacReady: Why don't we just wait here for a little while... see what happens...

 

 

Está prestes a estrear um remake disfarçado de prequela de um dos meus filmes de ficção-científica favoritos. Isso não me deixa nada contente, e duvido muito que digne tamanha barbaridade com cinco euros gastos num bilhete de Cinema...

Somos atacados quase semanalmente por filmes que são remakes, prequelas ou ambos. Não o podemos negar, e também não o podemos evitar. Perante esta terrível realidade só há uma coisa a fazer: divulgar o máximo possível os filmes originais e mostrar o amor que temos por eles.

Devemos fazer isto porque este proliferar de remakes significa que a maioria dos elementos das gerações mais jovens vão crescer a adorar versões modernizadas de clássicos do Cinema, desconhecendo esses mesmos clássicos, porque é cultivada uma mentalidade que diz que o que é velho é inferior. O que é moderno, o que é o mais actual possível, é necessariamente superior às criações de décadas passadas, ameaçando reduzi-las a poeirentas peças de museu.

Clássicos como os de John Carpenter não são peças de museu. Brota deles uma vitalidade superior à maior parte dos filmes dos anos 2000, o que aumenta ainda mais a tristeza de os ver serem alvo de remakes.

 

Antes de mais é necessário esclarecer uma coisa: o "The Thing" de John Carpenter não é completamente original. O que não quer no entanto dizer que seja um remake. Inspirou-se no filme de 1951 "The Thing From Another World", que por sua vez foi inspirado pelo conto "Who Goes There?" de John W. Campbell Jr., mas em vez de refazer o filme de 1951, Carpenter fez uma adaptação mais fiel do conto original, e criou uma história, personagens e ambiente, segundo as suas próprias fórmulas. A marca pessoal do realizador é mais do que evidente em todo o filme.

 

Uma das coisas que não tenho qualquer problema em admitir em relação a "The Thing", é que é dos filmes mais assustadores que já vi, (assim como um outro filme de Carpenter, "Halloween", mas desse falarei noutra altura). Aliás, no género de terror/ficção-científica devo dizer que é o meu filme de eleição, acima do "Alien". E eu adoro o "Alien".

Os dois filmes podiam muito bem ser primos directos, e há que dar os louros a quem pertencem: o "Alien", que estreou primeiro, influenciando sem dúvida Carpenter, não deve por esse mesmo motivo ser esquecido quando se fala no "The Thing". Sem o filme de Ridley Scott, talvez não tivesse existido o de John Carpenter. Apesar do conto em que se baseou Carpenter ser muito anterior ao "Alien", as sensações transmitidas pelo "The Thing", derivam do estilo da obra de Scott.

O tema central dos filmes é essencialmente igual: claustrofobia e situação limite de sobrevivência. Um pequeno grupo de pessoas é atacado por um extraterrestre num local fechado e afastado da civilização, e obrigado a lutar para sobreviver.

À primeira vista, a claustrofobia provocada pelo "Alien" parece ser maior. O pequeno grupo de pessoas está aí à deriva numa pequena nave espacial, pelo Espaço profundo, um vazio a anos-luz de casa, enquanto que as personagens de "The Thing", mesmo estando num local remoto, têm a sorte de ao menos estarem na Terra. No entanto, a claustrofobia criada por Carpenter parece-me ter contornos que a tornam mais próxima a nós próprios, e mais perturbadora.

 

É verdade que no Espaço ninguém te ouve gritar, mas na Antártida também não. Não é preciso ir para outra galáxia para perder qualquer hipótese de contacto com outros seres humanos, podemos facilmente perdê-lo na Terra, e esta é uma das principais mensagens do filme.

Uma mensagem que, aliás, se torna ainda mais significativa no presente. Temos satélites, GPS e todo o tipo de aparelhos de comunicação altamente desenvolvidos, porém, se estas ferramentas deixam de funcionar, ficamos rendidos ao medo e à paranóia, e temos de lutar pela sobrevivência recorrendo aos nossos instintos básicos. E a tecnologia não aumentou a nossa solidariedade. No meio do gelo, debaixo de uma tempestade e sem meios para pedir auxílio, colocamos a nossa sobrevivência acima de qualquer respeito por uma vida humana que não seja a nossa.

 

Depois, a Coisa é muito, mas muito mais assustadora do que o Alien.

Temos medo do Alien como teríamos medo de um lagarto gigante. O Alien tem uma forma específica, que é nojenta e sanguinária, sim, mas ainda assim tem uma forma concreta. Está mais perto de seguir as leis da Natureza por nós conhecidas do que a Coisa.

A Coisa é explicada por métodos científicos pelo cientista principal do filme, mas aquilo que este ser faz, viola todas as regras da existência do Homem. Assimila e imita formas de vida para sobreviver, mas consegue também destituí-las de todas as regras naturais que as tornam aquilo que são, e corromper as normas que dão forma aos corpos, pudendo tranformar um cão ou um homem em criações macabras, saídas dos nossos piores pesadelos.

O medo que temos da Coisa é visceral, porque esta criatura é isso mesmo, uma coisa, e uma coisa capaz de se multiplicar num infinito número de visões infernais. E mais assustador ainda, é o real golpe de génio da criação deste monstro, é que apesar de ser tão bizarro, pode fazer-se passar na perfeição pelo nosso melhor amigo.

O aspecto macabro deste visitante de outro mundo é produto daqueles que são dos melhores efeitos especiais da história do Cinema, feitos mesmo "a sério", sem nada de CGIs. É uma pena que se esteja a perder a arte dos efeitos especiais físicos face aos efeitos feitos por computadores, porque por mais realista que seja um efeito especial digital, nunca tem a sensação de realidade de algo que foi mesmo feito de verdade, seja uma criatura ou uma explosão. E isso inclui até o "Avatar".

 

Dir-se-ia que "The Thing" não poderia ter nada mais assustador do que o que já descrevi. Mas tem. É o final, aquele extraordinário final.

Um dos objectivos ao deixar aqui este texto é dar a conhecer o filme, ou motivar quem não tenha sentido interesse em vê-lo. Aconselho portanto quem não tenha visto o filme, a que o veja antes de ler o resto do artigo, pois o seu final é mais eficaz se tiver do seu lado o elemento surpresa.

 

O final de "The Thing" é uma síntese de todo o Cinema de John Carpenter, do seu estilo, do seu terror, dos seus temas e avisos à humanidade. É profundamente niilista, com aquela aura de colapso inevitável da civilização que o realizador já tinha mostrado em "Escape From New York".

Ao fim de duas horas de filme, já tinha visto muitas imagens macabras capazes de me assombrar durante vários dias, mas aquilo que mais me marcou, foi o final, e nunca o esqueci. A sensação de solidão total atinge o pico no fim, e o medo também. E é tão brilhante por ser tão simples: são dois homens a falarem um com o outro, no meio de destroços e labaredas.

Muito provavelmente, um deles é a Coisa, mas não sabemos qual. Eles próprios estão desamparados, e exaustos. A imagem de cansaço que o MacReady de Kurt Russell exibe é tão humana, que se torna no ingrediente secreto que faz toda a cena funcionar tão bem. Depois da loucura porque passou, da corrida desenfreada pela sobrevivência, sentar-se e beber é a resposta natural. E foi esta naturalidade que, a par da minha admiração pela coolness de Kurt Russell, sempre me fez apostar em MacReady como o sobrevivente humano.

Porém, seja ou não MacReady o humano, existe um filme inteiro para ser contado depois do filme. Mas antes que isto dê ideias para sequelas a alguém, a eficácia do final de "The Thing" está intimamente ligada ao facto de que esta continuação é um filme que não é suposto nós vermos.

A simples sobrevivência da Coisa, coloca todo um rol de questões que me assustam muito mais do que aquela cabeça com patas de aranha. Se a Coisa sobreviveu, é provável que consiga chegar à civilização e que provoque uma devastação sem fim na Terra.

E que resposta é que Carpenter dá a isto? Novamente a naturalidade de MacReady: não podemos fazer nada a não ser recuperar algumas forças, e esperar para ver o que acontece. E o que acontece, acontecerá na nossa imaginação, assumindo a forma dos nossos medos pessoais.

 

Espero que se um dia a civilização acabar mesmo, este seja um dos filmes que sobrevive à destruição, para dar a conhecer a possíveis visitantes de outros mundos, a genialidade de uma das nossas maiores artes.

 

 

10/10

 

 

 

publicado por RJ às 23:18
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Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011

O triunfo da luz

 

"Midnight in Paris"

 

Adriana: That Paris exists and anyone could choose to live anywhere else in the world will always be a mystery to me.

 

 

Woody Allen já foi brilhante muitas vezes, de muitas maneiras diferentes. Já foi cómico, no sentido surreal e intelectual do termo, já analisou as idiossincracias da sociedade e dos seus habitantes neuróticos, já mostrou a face trágica dos relacionamentos, e já foi nostálgico. Sou fã de todas essas suas facetas, mas Allen nunca foi tão mágico e tão luminoso. E mais do que isso, uma obra sua nunca significou tanto para mim.

Já ganhou Óscares, e mesmo não sendo um realizador apreciado entre sectores demográficos muito alargados, o seu contributo à sétima arte está mais do que reconhecido. Com todos os triunfos aparentemente já conquistados, Woody Allen podia reformar-se e viver tranquilo à custa de velhas conquistas, seria o comportamento expectável. Ninguém diria que seria agora que iria produzir a maior das suas obras-primas.

Como é que isso foi possível? Simples. Porque apesar da atitude descontraída em relação ao que faz, o Cinema é aquilo que nasceu para fazer, e irá continuar a fazê-lo com uma paixão incansável.

  

Já simpatizei anteriormente com a personagem típica de Allen, e as dúvidas existenciais que foi expondo ao longo da filmografia do realizador. Porém, as dúvidas àcerca da finalidade da existência são algo com que todos nos identificamos, e são muito fáceis de ter. Não é difícil constatar que não há um sentido para a vida, que a existência do Homem é fruto do acaso ou que o ser humano tem falhas na forma como se relaciona entre si que provavelmente nunca irá contornar. Também não é difícil encontrar um sentido para a vida. Há imensas respostas, e são-nos atiradas à cara diariamente, tanto por livros de ajuda espiritual ou religiões mais ou menos sérias, como por anúncios de televisão. O que é mesmo difícil, é agarrarmo-nos a uma resposta, e construirmos um sentido para nós e para os outros a partir dela.

É esse o grande tema de "Midnight in Paris".

 

Mais do que simpatizar, identifico-me com Gil. Identifico-me com ele porque também sonho com a escrita, porque também adoro andar pelas ruas das cidades, tanto de dia como à noite, também vejo uma beleza refrescante quando esses passeios são feitos à chuva, e também me sinto diversas vezes perdido no tempo e no espaço. Partilho daquele sentimento nostálgico por uma época de ouro perdida algures no passado, e uma das minhas épocas de eleição são também os anos 20.

Gil é felizardo o suficiente para encontrar uma passagem para essa época de sonho, e além dos seus artistas de eleição, como Scott Fitzgerald e a sua esposa Zelda, Ernest Hemingway, Salvador Dalí e Cole Porter, conhece Adriana, a encarnação feminina perfeita daquele tempo, e não podia haver uma melhor Adriana que Marion Cotillard, a actriz mais bela da actualidade. Cotillard é abençoada com a aura de encanto de uma musa perfeitamente fora do seu tempo, o que a torna na personificação ideal de uma beleza distante e quase inatíngivel.

 

Graças ao talento de Allen para dar em pequenas frases e pequenos momentos uma grande dimensão às personagens, os heróis de Gil não são simples caricaturas. Só que também não são um retrato fiel, puro e duro, daquilo que foram estas pessoas na realidade. Um retrato assim teria de mostrar tanto o preto como o branco das suas vidas, assim como as áreas cinzentas da sua personalidade, e este é um retrato de um fã. Tem os seus alicerces na realidade que se conhece do período de vida destas celebridades em Paris, construindo a partir daí um retrato baseado na forma como Gil, e qualquer fã, as vê e como idealiza que fosse a sua companhia.

 

Esta personagem interpretada por Owen Wilson tem traços claros de Woody Allen, contudo é muito diferente do protagonista clássico do realizador. A "personagem de Woody Allen", que o próprio Woody Allen tantas vezes interpretou, intelectualizava demasiado a realidade, é alguém para quem a vida não faz sentido, enquanto que Gil é alguém que tem um sentido para a vida, só que este se encontra perdido numa época diferente.

Não é por acaso que a figura do intelectual moderno é satirizada neste filme através do pedante que Michael Sheen interpreta. Allen submete a perspectiva intelectual e estritamente racional de olhar o mundo, a uma paixão impressionante pela vida. Já retratou fielmente as batalhas existenciais dos intelectuais nova-iorquinos, mas esse era o tempo de "Annie Hall", um tempo que precisava desse olhar intelectual. O nosso presente precisa de redescobrir o amor pela sociedade humana seja de que maneira for, e Woody Allen apresenta-nos uma opção, redescobri-lo através de Paris.

Gil ama a vida porque ama Paris, tanto a do passado como a do presente, uma cidade que é um monumento ao que a sociedade humana é no seu melhor.

 

Os parentes mais próximos de "Midnight in Paris" são outras duas cartas de amor recheadas de nostalgia, "The Purple Rose of Cairo" e "Radio Days". Na primeira há um amor impossível entre uma personagem de Cinema e uma fã, na segunda, Woody Allen retrata o crescimento acompanhado pela rádio. Juntamente com esta viagem a Paris, são os momentos em que Allen se confessa comovido pelo passado, mas antes de Paris, o passado era apenas um bem perdido. Outro parente é "Manhattan", por já ter aí mostrado o amor por uma cidade como âncora da existência, e agora em Paris, adiciona esse amor ao sentimento de nostalgia, para criar o seu filme mais assumidamente bonito.

 

A nossa época precisa de um incentivo a abraçar a alegria da vida, e mais importante, precisa de um incentivo que ao contrário dos anúncios publicitários e dos finais cor-de-rosa, soe a algo verdadeiro. E "Midnight in Paris" tem uma joie de vivre impressionante, mas honesta. A realização final de Gil é amarga, mas necessária para que ele, e nós, saibamos como retirar alegria do nosso descontentamento com o tempo em que vivemos.

À meia-noite em Paris, triunfa a luz. O sonho da época de ouro ilumina-nos o presente, sempre que este é insatisfatório, porque é por isso que sonhamos com outros tempos. Precisamos de encontrar o melhor recanto possível do planeta, a nossa Paris, e depois sonhamos, para que esses sonhos dêem ao mundo que nos rodeia o que nele falta para se aproximar do nosso paraíso pessoal.

Acredite quem estiver a ler, que raramente me senti tão iluminado na escuridão da sala de Cinema. 

 

 

10/10

 

 

 

publicado por RJ às 02:24
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Sábado, 23 de Julho de 2011

O labirinto urbano

 

"After Hours"

 

Paul Hackett: I want to live.

 

 

Sou o tipo de pessoa a quem acontecem muitas coincidências, do género, sentar-se ao meu lado numa sala de Cinema alguém que conheço, totalmente por acaso. Logo, filmes sobre o acaso atraem-me.

Costuma-se dizer que o mundo é pequeno, mas não creio que o problema seja esse. A confusão criada pela colisão constante dos milhões de vidas humanas é que é demasiado grande. "After Hours", uma pérola de Martin Scorsese injustamente esquecida, retrata esta confusão.

 

É igualmente parte da sabedoria popular que cada cidade é na verdade, duas cidades. Uma de dia, outra de noite. E a noite é por definição, o espaço da ilegalidade, do proíbido. O Homem, à semelhança das cidades, é também duplo, diferente à noite daquilo que é durante o dia. À noite cede mais facilmente ao instinto, perde mais facilmente o controlo. Na noite, podemos esquecer aquilo que somos.

 

O protagonista é um de nós. Tem uma vida pacata e previsível como empregado de escritório, nada de grandes agitações nem aventuras, até que, como não poderia deixar de ser, conhece uma mulher. Uma mulher num café ao final da noite que o convida a segui-la para a baixa de Nova Iorque. E quantos de nós não nos perguntámos já sobre o que teria acontecido se tivessemos ido atrás daquela rapariga que conhecemos no comboio, no metro, no café? São as infinitas possibilidades deixadas por estes encontros formados pelo acaso, e aquele homem comum, arriscou persegui-las.

 

Inevitavelmente, o que parecia algo terrivelmente simples torna-se incrivelmente complicado. Seguir a mulher enigmática do café será apenas o primeiro passo para uma sucessão de incríveis coincidências que mergulham Paul numa espiral de acontecimentos que o afasta cada vez mais do regresso a casa. Por mais que tente, falta sempre realizar mais uma tarefa que lhe comprará o regresso, mas a teia do acaso não o solta, por muito que ele se debata. Tudo o que podia acontecer, acontece, e tudo o que podia correr mal, corre mal.

É um misto de comédia sobre coincidências e viagem em direcção a um estado de paranóia, que nos deixa tão absorvidos na teia que vai tecendo como o próprio protagonista, fruto de um argumento verdadeiramente brilhante e de um Scorsese inspirado no estilo do mestre do suspense, Alfred Hitchcock.

A cada reviravolta a ansiedade cresce, alimentando a nossa frustração de ver Paul regressar finalmente a casa, sem nunca se perder um humor irónico que impede o filme de ter um tom excessivamente pesado, que conduzisse mesmo o protagonista e o espectador à insanidade.

Os twists são brilhantes, usando pequenos pormenores para se entrelaçarem, e apoiando-se em coincidências que mesmo sendo improváveis, nunca caem no exagero. A impedir o exagero está, além do sentido de humor, uma lógica na formação da grande cadeia do acaso, que termina tudo em full circle. O final é o melhor que se poderia imaginar, não creio que houvesse forma mais brilhante de terminar aquela longa noite.

 

Griffin Dunne é perfeito como protagonista por representar na perfeição alguém que podia ser qualquer um de nós. Parece ter passado da realidade para a tela de Cinema. E é impressão minha, ou parece-se um pouco com uma versão mais nova do próprio Scorsese?

 

Uma obra-prima de Martin Scorsese, que retrata o quão louca pode ser a baixa de Nova Iorque à noite, e o quão poderoso é o efeito das coincidências.

Se estiverem à procura de uma aventura já sabem, sigam a mulher enigmática do café.

 

 

9/10

 

 

 

 

publicado por RJ às 01:58
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Quinta-feira, 16 de Junho de 2011

Os épicos anos 60

 

"X-Men: First Class"

 

Charles Xavier: Listen to me very carefully, my friend. Killing Shaw will not bring you peace.

Erik Lensherr: Peace was never an option.

 

 

Tudo corria conforme planeado no mundo das adaptações cinematográficas dos super-heróis. Os dois primeiros "X-Men" (especialmente o "X2"), foram excelentes blockbusters que transpuseram muitíssimo bem o mundo dos X-Men para a actualidade, e o "Spider-Man 2" elevou a fasquia ao recriar no grande ecrã a empatia que sentíamos pelo Aranhiço quando líamos os comics, graças ao facto de Peter Parker enfrentar, quando está sem máscara, o mesmo tipo de problemas do quotidiano que qualquer ser humano normal enfrenta. Os terceiros filmes de ambas as sagas acabam por cair no comum erro de "excesso de porrada e demasiadas personagens", e encerram-se duas trilogias àquem das expectativas. É então que surge um indivíduo chamado Christopher Nolan que prova que podíamos fazer muito mais do que produzir simplesmente um sentimento de identificação do espectador com o protagonista da aventura saída dos quadradinhos: podíamos desafiar o espectador.

Depois disto a Marvel recupera terreno com o primeiro "Iron Man", uma adaptação descomprometida de puro entretenimento, à qual sucedeu uma sequela fraca cheia dos clichés do entretenimento da pipoca. Ficou claro que o homem-morcego era o adulto, e que os outros estavam presos no excesso de hormonas da adolescência.

 

Gostaria desde já de deixar claro que apesar de considerar que o "The Dark Knight" é a melhor adaptação de um comic de sempre, não acho que seja um filme de super-heróis. Não só porque as raízes do Batman não são as de um super-herói convencional, mas porque o "The Dark Knight" é sobretudo um thriller/policial (assim como o "Batman Begins"), e é dentro desse género que considero estar no topo.

 

Ora a lição de Nolan parece ter surtido efeito, e como que caído dos Céus, chega-nos este "X-Men: First Class" de Matthew Vaughn. Meio prequela, meio reboot, conta a história da revelação da existência dos mutantes, da formação dos X-Men e da amizade caída em desgraça de Charles Xavier e Erik Lensherr, futuros Professor X e Magneto.

Tal como Nolan, Vaughn não teve medo de correr riscos e de ser original, rejeitando a hipótese de fazer um reboot que colocasse os X-Men novamente no presente, e leva-os até à década de 60, em plena Guerra Fria e Crise dos Mísseis de Cuba. Face a um universo de espectadores que se habituou à modernização dos super-heróis, isto foi de facto um risco, e talvez explique porque é que apesar de um incrível sucesso a nível de crítica, o filme está com resultados de bilheteira inferiores aos dos seus antecessores.

 

O cenários dos sixties resulta na perfeição. Enquadrar as personagens em acontecimentos históricos reais torna a história muito mais cativante, e ajuda a que a ameaça da Terceira Guerra Mundial não pareça enfadonha. As ameaças de "fins do mundo" pertencem naturalmente aos anos 60, quando as nações receavam um iminente holocausto nuclear, que na realidade, esteve muito perto de acontecer. É uma história que tirando a parte de envolver pessoas com super poderes, podia perfeitamente pertencer a um filme do James Bond. E é dos James Bond de Sean Connery que Vaughn parece ter retirado grande parte da inspiração.

O vilão é tipicamente Bondiano, com o seu plano de concretizar as ameaças da Guerra Fria, o seu submarino e a sua femme fatale que apesar de estar quase sempre em roupa interior é uma mulher cheia de classe, (essa divindade chamada January Jones, pois). E Kevin Bacon dá o tom sinistro certo ao papel, e não deixa que o seu Sebastian Shaw se torne demasiado parecido a uma caricatura. Não posso deixar ainda de referir a interpretação dessa surpreendente jovem actriz de nome Jennifer Lawrence, que depois de um salto para a fama com aquele murro no estômago de nome "Winter's Bone", se torna numa belíssima Mystique.

É ainda impressionante como, tendo um vilão com ambições tão megalómanas, o filme não cai no exagero. Vaughn não é um Michael Bay, e as cenas de acção não abusam da pirotécnia e não conduzem à acumulação de montanhas de sucata. Era fácil cair na tentação de fazer batalhas com bolas de fogo gigantes e arrasar cidades inteiras, especialmente tendo a oportunidade de usar as mais diversas habilidades mutantes, e isso podia valer prémios nos concursos internacionais de CGI, mas não iria manter o espectador agarrado ao ecrã. Ver cidades explodir já não impressiona ninguém, o que impressiona é quando se consegue fazer com que a acção sirva como momento de desenvolvimento das personagens. A luta final (esse desfecho fundamental no universo dos super-heróis), que podia tão facilmente ter caído no exagero ridículo, é incrivelmente intimista, e nunca deixa de focar as personagens e a evolução dos seus percursos, e isso faz com que nos surpreendamos de facto com o que estamos a ver.

 

O Erik de Michael Fassbender é também ele muito Bondiano, e torna-se a verdadeira estrela do filme. Erik Lensherr podia ser facilmente confundido com uma versão implacável de um jovem Bond dos anos 60, e quando digo "implacável" quero mesmo dizer implacável. Vaughn não tem problema em mostrar violência quando esta é necessária para aumentar a intensidade e tornar a sede de vingança de Erik palpável. O que faz dele a personagem mais badass de sempre do género. Sim, ainda mais badass que o Wolverine de Hugh Jackman, (que já agora, faz um cameo memorável).

Fassbender faz ainda a melhor interpretação que o género alguma vez viu, merecedora de uma nomeação ao Óscar. Sentimos que estamos a ver um homem cujo coração foi irremediavelmente quebrado pela crueldade do ser humano, o que faz com que sintamos compaixão por ele, apesar de vermos como consegue ser brutal. É muito mais do que fazer o espectador simpatizar com o futuro vilão, é fazê-lo sentir-se desafiado por quem ele é, e o que representa.

Tudo isto coloca também Erik num balanço perfeito com o Charles Xavier de James McAvoy (que apesar de ser superado por Fassbender, também foi um casting perfeito), o reverso pacifista da medalha. O nascimento de Magneto está intimamente ligado à amizade com Charles, e é esta amizade a peça fundamental para que "X-Men: First Class" se torne lendário. A quebra desta amizade, provocada pela caída nas trevas do jovem Magneto, dá uma densidade dramática invulgar ao filme, que o eleva mesmo ao estatuto dos inesquecíveis. O arrepiante momento em que o abismo se abate finalmente entre os protagonistas , é verdadeiramente épico.

 

A obra-prima de super-heróis que o Cinema merecia.

 

 

9/10

 

 

 

publicado por RJ às 22:56
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Sábado, 17 de Julho de 2010

"Hot Fuzz"

 

 

Danny Butterman: Where's the trolley boy?
Nicholas Angel: In the freezer.
Danny Butterman: Did you say "cool off?"
Nicholas Angel: No I didn't say anything...
Danny Butterman: Shame.
Nicholas Angel: Well, there was the bit that you missed where I distracted him with the cuddly monkey then I said "play time's over" and I hit him in the head with the peace lily.
Danny Butterman: You're off the fuckin' chain!

 

 

"Hot Fuzz" é incrível. Mas daqueles filmes incríveis a um nível verdadeiramente épico.

Agora o que faz de "Hot Fuzz" das coisas mais geniais a sair da 7ªarte nos anos 2000? A resposta é: tudo. Tudo o que se passa naquela hora e meia é genial, portanto o melhor seria mesmo que começassem a ver o filme assim que eu acabasse esta frase, e que só depois de o verem continuassem a leitura.

 

O coração do filme é o seu humor. É um humor próprio e genial, (preparem-se, a palavra "genial" deverá ser usada por mim várias vezes ao falar neste filme). Não estamos a falar de um humor parvo, não estamos a falar do humor da típica comédia brainless das tardes televisivas de fim-de-semana. Estamos a falar de uma sátira feitas com uma inteligência soberba, uma inteligência que faz com que, mesmo os momentos aparentemente parvos sejam inteligentes.

Mas porquê? Afinal, de onde vem esta genialidade toda?

"Hot Fuzz" é um filme que tem várias camadas de genialidade e analisá-las é tão empolgante quanto difícil. Dificíl porque ficará sempre a sensação de que escapou alguma coisa.

A sátira genial começa no fio condutor da história propriamente dito: o polícia londrino Nicholas Angel era tão extraordinário que, para não deixar o resto da esquadra mal vista, foi promovido a sargento e transferido para a vila de Sandford, uma terra perdida no meio do campo inglês, que é considerada o sítio mais seguro do país. Claro que está prestes a descobrir que a vida rotineira e sem surpresas da vila, onde qualquer morte é considerada um simples acidente, pode esconder algo de sinistro...

 

Isto é a chama de todo o brilhantismo que se irá seguir.

Não é uma comédia vulgar, e portanto não surpreende que tenha tido alguma dificuldade em estrear no nosso país. Perceber o quão "Hot Fuzz" é bom não é fácil. Não requer um curso de Cinema, mas requer uma mente aberta a um tipo de comédia diferente daquilo que Hollywood costuma enviar para as salas. Sim, porque este é um produto com um grande nível de "comédia british", o que se compreende, antes de mais por ser uma criação inglesa. Até hoje, foi dos filmes que mais me fez rir, mas faz rir fazendo pensar ao mesmo tempo. O humor está recheado de pequenas subtilizas, e deixa-se que o espectador absorva esses toques de humor tão bem construídos. As sátiras dentro da sátira. 

Para explicar melhor isto, existe outra coisa que é necessário perceber em relação a "Hot Fuzz": satiriza o Cinema de acção.

 

Edgar Wright e Simon Pegg agarraram em todos os clichés dos filmes de acção e colocaram-nos num filme. Uns foram colocados de forma mais subtil que outros, mas estão todos lá. E o filme brinca constantemente com isto, basta recordar a cena em que Angel tem de ouvir um rol interminável de perguntas do seu novo parceiro Danny (Nick Frost), que é fã de filmes de acção desde "Die Hard" a "Bad Boys II", sobre se já fez algumas das coisas características das típicas cenas de acção. Por exemplo, disparar uma, ou duas, armas enquanto se salta. No fim, nas apoteóticas cenas de acção finais, os personagens fazem de facto, todas estas coisas.

Porém, é preciso perceber que, a inteligência desta brincadeira sobressai também por o filme não querer fazer o espectador pensar que todos estes filmes de acção com todos estes clichés são maus. Pelo contrário, o filme homenageia o Cinema de acção e no final, deixa sim a sensação de que este é de facto uma parte importante do Cinema. Aqui não há humor grosseiro, só humor inteligente e muito amor aos filmes.

 

Deve ainda ser mencionado que é um filme com uma dose considerável de violência. Sim, acontecem coisas neste filme com um nível bastante respeitável de sangue, mas apesar de serem macabras, situam-se no espectro cómico do macabro. O exagero da violência faz parte da sátira. É um pouco como a violência dos Looney Tunes.

Mas esta violência é tão característica deste "Hot Fuzz" como do anterior filme da parceria Edgar Wright/Simon Pegg/Nick Frost, o igualmente genial, "Shaun of the Dead". Wright assume o cargo de realizador, escrevendo o argumento em parceria com Pegg, que por sua vez protagoniza os filmes ao lado de Frost. Aliás, "Fuzz" é na verdade o segundo capítulo daquilo a que Wright e Pegg chamam de "Blood and Ice Cream Trilogy", sendo portanto "Shaun" o primeiro capítulo. O terceiro está para sair e terá o título de "World's End".

O nome desta trilogia deve-se ao já mencionado gore e ao facto de as personagens comerem Cornettos em todos os filmes.

 

Vale a pena voltar a repetir a palavra "genial" para descrever as interpretações. A dupla Simon Pegg e Nick Frost funciona com perfeição absoluta, como se ambos tivessem sido feitos para interpretarem lado a lado, (e provavelmente foram mesmo). A ingenuidade, deleite e fascínio que Danny tem com o mundo empolgante dos filmes de acção é o yang perfeito para o yin do super-polícia Nicholas Angel, com a sua seriedade e obsessão em cumprir a lei. Os diálogos entre os dois são absolutamente maravilhosos.

A compor o elenco temos ainda um excelente Jim Broadbent e um Timothy Dalton num tom sinistro fabuloso, um exemplo de casting perfeito. Já para não falar numa galeria imensa de outros actores a fazerem pequenos cameos, como Bill Nighy e, imagine-se, Cate Blanchett e Peter Jackson.

 

No meio de toda a sátira, o fio condutor da história progride para nos trazer surpresas no fim, (a agora, aconselha-se que quem ainda não viu o filme, não continue a ler este parágrafo). A revelação de que os crimes estão de facto a ser cometidos pelo grupo de cidadãos respeitáveis da vila é deliciosa, especialmente quando é revelado que as mortes não tiveram por trás nenhum plano audacioso como Angel imaginara, mas o simples desejo de eliminar pessoas que destabilizavam a perfeição da vila, por fazerem coisas consideradas irritantes ou incómodas. A sinistra organização secreta dos respeitáveis da vila que luta pelo "greater good", acrescenta à sátira geral, uma sátira à "utopia social" de forma verdadeiramente brilhante.

 

"Hot Fuzz" é um marco. É uma comédia para estimar e apreciar ao longo de muito tempo, indo saboreando todas as pequenas coisas fenomenais que tem.  Genial, pois.

 

10/10

 

 

 

publicado por RJ às 04:32
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Quinta-feira, 10 de Junho de 2010

"Casablanca"

 

Rick: Louis, I think this is the beginning of a beautiful friendship.

 

Hoje, passamos pela vida com demasiada rapidez. Padecemos de uma fome que nós próprios criámos.

No Cinema, vêmos bem como a velocidade com que se consomem as coisas aumentou. E isso foi criado pela própria indústria, que vive na Era da reciclagem.

Mas por muito que ser-se ecológico seja louvável, a reciclagem de ideias, por nem chegar a ser uma reciclagem decente no sentido de nos dar um produto novo que saia da máquina a brilhar, mostra na maioria dos casos falta de criatividade. A reciclagem é barata, e o filme sai ferrugento.

Cria-se na sociedade um desejo de ver tudo feito novamente, pela simples razão de que os filmes antigos são antigos. Claro que o conceito de antigo para a maioria das pessoas é de um filme com mais de dez anos. E nem se fala nos filmes que já atingiram a idade adulta, esses são autênticos achados arqueológicos.

O Passado existiu sim, mas é uma mera curiosidade. Um lugar onde as pessoas se vestiam, comportavam e falavam de forma pouco desenvolvida, filmadas por equipamento que faz com que os filhos da geração do HD e do 3D se sintam envergonhados de dizer que nessa época, aquilo também era chamado "Cinema". Logo, porque tem um indivíduo destes tempos modernos de ver filmes dos tempos primitivos?

A resposta é simples: porque o Passado do Cinema é um sítio encantador.

 

Alguém que diga ser um amante da sétima arte não pode não ver "Casablanca". E certamente que não pode não gostar de "Casablanca", pois se é verdade que gostos não se discutem, não menos verdade é o facto de "Casablanca" ser um dos melhores filmes de sempre.

É um dos melhores filmes de sempre por muitas razões, e não duvido que se poderiam alimentar infinitos debates à volta do tema. Teve uma enorme importância na História desta arte, tem interpretações fantásticas onde se destaca o cínico Rick que Humphrey Bogart compõe extraordinariamente bem, tem diálogos  sinceros por vezes com um humor delicioso e muitas frases memoráveis, e tem aquela belíssima atmosfera do bar. Mas dizer isto é dizer pouco. "Casablanca" é uma pura pérola porque é eterno. E é eterno, porque o amor também o é, (estará a aproximar-se um cliché?).

Quanto ao amor entre duas pessoas, não sei se será eterno. Acho que pode ser, mas semelhante ocorrência é incrivelmente rara e talvez esteja em vias de deixar de ocorrer de todo. Porém o Amor, a emoção, é de facto eterna. O que seria do Homem sem ela, nem é bom imaginar. É eterno porque, como a canção de Herman Hupfeld nos diz: "The fundamental things apply / As time goes by".

Não importa o que muda, importa que o Amor não muda. Continuará claro a quebrar corações, por não ser correspondido, por ter obstáculos no seu caminho ou por se tomar como garantido... Mas continuará também a ser fundamental, e um amor verdadeiro pode sentir-se hoje como também alguém o sentiu há décadas ou séculos atrás. Liga todos os que já o sentiram e dá um poder relativo às armas do Tempo, que não o conseguem mudar. Isto porque apesar de muita coisa associada ao Amor puder mudar, no âmago ele não muda.

"Casablanca" é perfeito porque representa isto da forma incrivelmente verdadeira. É romântico, mas com um Amor vindo da alma, que se apresenta como é, e nos toca pela sua verdade. Um Amor que teve uma canção própria, que depois sofreu, que se tentou esquecer mas que volta, desferindo mais um golpe em corações nos quais o golpe passado se tinha já tornado em cicatriz. Assim, sem se conseguir combater, vai exigir novo compromisso dos apaixonados, e possivelmente, um compromisso ao sacrifício.

 

O Cinema é também um Amor que pode ser eterno. Não tem barreiras pois aquilo que representa quando produz Arte é intemporal. "Casablanca" é um símbolo desta eternidade, a eternidade dos filmes com uma magia única, irrepetível.

Perder o Passado do Cinema é perder o Cinema. Talvez não por completo, mas perder grande parte dele e fazê-lo metamorforsear-se numa nova coisa, muito menos agradável, e muito menos mágica.

 

Rick e Ilsa terão sempre Paris, o recanto no seu Passado que conserva para sempre a memória do seu amor. Nós teremos sempre "Casablanca", o filme de um Passado encantador, que conserva para sempre, a memória de uma magia cinematográfica que o nosso tempo não consegue reproduzir. E "Casablanca" estará sempre à nossa espera, um bom amigo que nos inspira tanto em tempos de felicidade como em tempos de tristeza, bastando só que não nos esqueçamos dele. 

 

10/10

 

 

 

publicado por RJ às 15:30
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Domingo, 20 de Dezembro de 2009

"Romeo + Juliet"

 

Baz Luhrmann adapta a eterna obra de William Shakespeare para os tempos modernos, passando a acção a desnrolar-se na fictícia cidade de Verona, (que parece a nossos olhos uma moderna cidade da América do Sul), e as duas famílias rivais, Capuleto e Montéquio, passam a ser famílias cujos pais são proprietários de duas ricas companhias rivais, e cujos filhos têm uns para com os outros, um enorme ódio, ódio esse com uma origem perdida no tempo.

Chegam-nos assim Romeu e Julieta, (Leonardo DiCaprio e Claire Danes), respectivamente filhos mais novos das famílias de Montéquio e Capuleto, que nutrem um pelo outro grande amor, que parece nunca poder vir a realizar-se devido à barreira de ódio que separa as suas famílias.

 

A história mantem-se a mesma, o cenário muda, e porém, todas as palavras permanecem inalteradas. Todos os diálogos são tal e qual como estão escritos na obra de Shakespeare, sem qualquer alteração.

Esta é a grande originalidade do filme. É algo simples, mas sem dúvida criativo e extraordináriamente bem feito, que Luhrmann torna numa perfeita adaptação da história original, mesmo com tudo o que possa de ter de novo e de estranho para os que detiverem uma posição mais conservadora em relação à história.

 

É de louvar a excelente composição dos personagens, (mesmo secundários como Tibaldo (John Leguizamo) e Mercúcio (Harold Perrineau) são exemplarmente representados, assim como os protagonistas), toda a imaginação na composição dos cenários, e do contexto em que os diálogos shakespeareanos se inserem. A construção da tela onde Lurhmann "pinta" esta sua adaptação é inovadora e sem dúvida um testemunho à originalidade, não só do realizador, mas de todos os enolvidos criativamente no filme.

Criam-se aqui sequências belíssimas como a da festa onde os dois amantes se apaixonam, (onde se notam imensos pormenores curiosos, desde a escolha de fato para as personagens, que nos traz um Romeu como um cavaleiro dos tempos antigos, e o rico e bem sucedido pretendente preferido dos pais de Julieta à mão da sua filha, Páris, como um astronauta americano, um "cavaleiro" dos tempos modernos, cena esta onde vêmos também o belíssimo encontro de olhares dos amantes pela água de um aquário), ou o dramático desenlace de toda a história de amor.

Era dificíl de prever o cenário de uma cidade  a fazer lembrar o Rio de Janeiro, e lutas entre os filhos e sobrinhos das duas famílias, que travam em bombas de gasolina e praias, duelos de pistolas e não de capa e espada, para pano de fundo de uma adaptação da mais famosa das histórias de amor, mas resulta na perfeição. Talvez seja pelos tons quentes, que nos transportam para um ambiente de mil e uma emoções a fervilhar debaixo de interesses dos pais e do caos da cidade, ou talvez seja simplesmente porque o que tornou esta história tão marcante em primeiro lugar, continua lá, de forma imutável: a reflexão para que nos remete e as palavras, as palavras do seu autor.

 

O filme representa perfeitamente o porquê de esta ser uma história intemporal, uma história que moldou para a sempre a imagem que temos da figura dos apaixonados, uma história que deixou escritos para sempre na mente dos apaixonados e não só, os nomes de Romeu e Julieta. Com paixão, é uma história que se pode desenrolar em qualquer tempo, em qualquer lugar.

As palavras, tudo aquilo que representam, é imutável, não podendo o seu poder ser abalado pelo Tempo ou pelo Espaço. Não são as palavras, no fundo, quando ditas com tudo aquilo que pretendem significar, quando sentidas, um voto de amor, independentemente do Tempo ou de qualquer outra variável?

As palavras que se sentem têm um significado maior, e são verdade hoje, assim como o são amanhã. E o Cinema, também consegue ser assim.

 

9/10

___

 

Tybalt: Peace? Peace. I hate the word, as I hate hell, all Montagues, and thee.

 

Juliet: O Romeo, Romeo, wherefore art thou Romeo? Deny thy father and refuse thy name, or if thou wilt not, be but sworn my love, and I'll no longer be a Capulet.
Romeo: Shall I hear more, or shall I speak at this?
Juliet: 'Tis but thy name that is my enemy, thou art thyself though not a Montague. What is Montague? It is nor hand, nor foot, nor arm, nor face, nor any other part belonging to a man. Oh, what's in a name? That which we call a rose by any other word would smell as sweet; so Romeo would, were he not Romeo called, retain that dear perfection to which he owes without that title. Romeo, doff thy name! And for thy name, which is no part of thee, take all myself.

 

Romeo: Is love a tender thing? It is too rough, too rude, too boisterous, and it pricks like thorn.
Mercutio: If love be rough with you, be rough with love. Prick love for pricking and you beat love down.

 

Juliet: My only love sprung from my only hate! Too early seen unknown, and known too late! Prodigious birth of love it is to me that I must love a loathed enemy.
 

 

 

publicado por RJ às 23:27
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Domingo, 29 de Novembro de 2009

Star-crossed lovers

 

 

 

"Romeo + Juliet", de Baz Luhrmann.

É Shakespeare num mundo actualizado mas a lição, é de que se pode passar em qualquer mundo.

É uma adaptação dessa obra literária maior, numa obra cinematográfica também, maior. Maior, pois a criatividade e inteligência desta adaptação aos tempos modernos, em que tudo é modernizado excepto as palavras, é uma prova de que as palavras que se sentem têm um significado maior, e de que tais palavras são verdade hoje, assim como o são amanhã.

É um voto de amor.  

 

 

 

publicado por RJ às 01:09
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Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

Sem Palavras

 

É como fico depois de ver "The Curious Case of Benjamin Button".

Parece que as palavras não fazem justiça a esta obra-mais-que-prima de David Fincher. Não é só a beleza de ser uma história extraordináriamente bem contada, de ser dotado da sensibilidade que apenas os filmes que nos arrebatam totalmente possuem, e de uma beleza única, é mais qualquer coisa, qualquer coisa que parece que fica sempre por dizer, quando falamos nestes filmes que nos apaixonam.

Se já é um dos filmes da minha vida? Bem... como poderia negá-lo?

 

 

 

publicado por RJ às 22:11
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Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

"Batman Returns"

 

Um Lugar Sinistro

 

PremissaBruce Wayne tem agora de enfrentar as ameaças trazidas por uma invulgar personagem que dá pelo nome de Penguin, e a letal Selina Kyle, transformada em Catwoman.

 

Veredicto: Tim Burton não só é um excelente contador de histórias, como consegue criar visuais únicos. Um conjunto de talentos, e uma percepção de como fazer Cinema, que o distancia de todos os outros realizadores, tornam-no no meu preferido.

 

Entre os filmes que o lançaram para junto das estrelas, contam-se duas adaptações do herói criado por Bob Kane, Batman. Burton deu à cidade do Homem-Morcego, características visuais notáveis, com o seu habitual tom gótico. Gotham está assim sempre coberta de tons de azul e preto, que formam um lugar sombrio, neste filme perturbado por imagens da época natalícia, que lança o branco sobre as ruas, e estranhamente, acaba por ajudar a criar o manto tenebroso de que se veste a cidade.

 

O primeiro flme é preenchido sobretudo com uma soberba interpretação de Jack Nicholson, como Joker, o segundo, "Batman Returns", ganha outra dimensão através de Catwoman e Penguin.

 

Com Penguin, Burton aborda um dos temas mais abordados na sua filmografia: o dos freaks e inadaptados. Oswald Copplebott foi abandonado pelos pais, e deixado à mercê de uma sociedade que o odeia e que o tornou na pessoa cruel que é hoje, ao tê-lo colocado de parte devido ao seu grotesco aspecto físico.

A excelente interpretação de um irreconhecível Danny De Vito, que dá ao Penguin, contornos puramente sinistros, contribui para que este filme seja uma visão sombria, de um mundo de trevas, onde os protagonistas fogem ao que é comum na sociedade, e tentam ou protegê-la ou destruí-la, sendo não só o Penguin, mas também a Catwoman e o Batman, um produto desta.

 

Selina Kyle transforma-se na sedutora e implacável Catwoman, pela violência, ganância e maldade que afecta a mente das pessoas numa Gotham coberta por crime. Batman, é o defensor, criado pela necessidade de enfrentar essa degradação.

 

Michelle Pfeiffer tem uma interpretação inesquecível. Com a sua Catwoman, cria a mais interessante, sensual e irresistível mulher das histórias do Batman até à data, e uma das mais sensuais do Cinema. Consegue fazer o espectador sentir amor à personagem, e ao mesmo tempo sentir as trevas que afectam a sua pessoa. É malícia e encanto no mesmo ser, é uma das personagens mais interessantes, e a grande femme fatale deste universo.

 

O elo mais fraco neste "Batman Returns", que já o tinha sido anteriormente em "Batman", é precisamente, o Batman. Longe de ser mal interpretado por esse bom actor que é Michael Keaton, assume um segundo plano, e os verdadeiros protagonistas acabam por ser os vilões. O que Christopher Nolan fez posteriormente, explorar muito bem a personagem de Bruce Wayne, é o que falta nas visões de Tim Burton.

 

No entanto é dificíl fazer comparações entre a visão de Burton e a de Nolan, pois os dois criaram interpretações diferentes da história, conseguindo ambos, filmes extraordinários. Nos dois filmes de Burton a atenção é dada aos vilões, e não a Wayne, o que acredito ter sido propositado, e é nestes filmes que vêmos três interpretações de três vilões, inesquecíveis.

Nunca poderão ser os melhores de Burton, não deixando por isso de ser óptimos exemplos do que a mente deste cineasta é capaz de criar.

 

8.5/10

 

Memorable Quotes

 

[Catwoman is hit]
Catwoman: How could you? I'm a woman.
Batman: I'm sorry, I-I...
[she hits him]
Catwoman: As I was saying, I'm a woman and can't be taken for granted. Life's a bitch, now so am I.

 

The Penguin: You're just jealous, because I'm a genuine freak and you have to wear a mask!
Batman: You might be right.

 

Catwoman: Batman napalmed my arm, he knocked me off a building just when I was starting to feel good about myself. I wanna play an integral part in his degradation.
The Penguin: A plan is forming.
Catwoman: I want in. The thought of busting Batman makes me feel all... dirty. Maybe I'll just give myself a bath right here.
[licks herself in a cat-like manner]

 

 

 

publicado por RJ às 00:27
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