Terça-feira, 7 de Agosto de 2012

O "nada fantástico" Homem-Aranha

 

 

Spider-Man: Ahem, you know, if you're going to steal cars, don't dress like a car thief. 
Car Thief: You a cop? 
Spider-Man: You seriously think I'm a cop in a skintight red and blue suit?

 

 

Este artigo contém spoilers.

 

Devo confessar desde já que sou fã do Homem-Aranha. Fã da personagem, não um especialista nos comics. Desde os tempos de criança em que me levantava cedo para ver os desenhos-animados do Homem-Aranha na SIC, que fiquei fascinado por este herói.

 

Estive sempre céptico em relação a este reboot. Contudo, Andrew Garfield até me pareceu uma boa escolha quando foi anunciado para o papel. É por isso uma pena que o filme faça uma interpretação ridícula do Peter Parker e das suas motivações.

Ao longo do filme, nunca consegui identificar naquele Peter Parker, o Peter Parker. Não tenho nada contra adaptar a personagem à actualidade, mas aquele ar de skater e adolescente frustrado (emo, hipster, ou seja lá o que for), não é o Peter Parker. A personalidade frustrada enraizada na perda dos pais, acaba por conduzir a uma representação errada daquilo que é a personagem.  Não só lhe dá ainda mais negatividade à partida,  como ainda coloca o trabalho de cientista do pai como estando na origem dos poderes de Peter, e parte da mística da origem deste super-herói é o facto de o incidente que lhe dá poderes ser obra do acaso.

Parece que com o êxito do "The Dark Knight" queriam fazer do Peter uma espécie de Bruce Wayne adolescente, e acabam por deixar que isso contamine tudo. A parte supostamente mais cómica do Aranha é outro desperdício, e acaba por parecer um pouco fora do contexto dada a frustração constante que o Peter transmite.

 

Depois, vem o aspecto crucial na base moral da personagem, a relação com os tios. Se esta já é pobre ao início, e a coisa só piora com a morte do tio. A morte do tio Ben é o momento fundador do Homem-Aranha, e é ridicularizada pelo filme. O tio Ben é morto porque Peter faz uma birra por não ter dinheiro suficiente para comprar um leite com chocolate. A sério?!

E ainda piora. Depois da morte do tio, Peter decide de facto começar a combater o crime como Homem-Aranha. Mas em vez de assumir a sua responsabilidade, decide perseguir apenas os criminosos que correspondem à descrição do assassíno do tio, para obter vingança. Quererá isto dizer que se visse alguém a roubar as compras a uma velhinha não a ajudaria a menos que o ladrão correspondesse à descrição?

A relação com a tia May é igualmente ridícula. Só apetece dar umas boas chapadas a este Peter pelo desprezo que lhe dá.

 

Este Homem-Aranha não podia ter menos de fantástico. Não é mais do que um miúdo frustrado com défice de maturidade.

Pelo meio há uma relação amorosa com a icónica Gwen Stacy, que não consegue mais do que causar embaraço ao espectador. Li algures que o filme tinha diálogos brilhantes e uma relação muito real entre eles os dois. Não me pareceu nada por aí além e não chamaria à tolice daquele diálogo do cacau algo brilhante. Secalhar tenho é de dar um desconto, porque esta Gwen deve ser muito mais inteligente do que eu, pois com apenas 17 anos já é a estagiária de topo no maior laboratório do mundo...

Gwen nunca é mais do que uma miúda com uma paixoneta, e uma paixoneta que tem pouco de real. Até nos momentos mais dramáticos, como depois de Peter estar envolvido no incidente que acaba por provocar a morte do pai de Gwen, ela nunca considera afastar-se de Peter. Aranha, estás à vontade, podes envolvê-la e à família dela em todos os esquemas maléficos de todos os vilões, que ela nunca se irá sentir incomodada!

 

O Homem-Aranha tinha inevitavelmente de voltar ao grande ecrã, e isto é o mais triste exemplo de uma oportunidade perdida. Já tinhamos a base da personagem tão bem estabelecida, por isso, e se em vez de fazer voltar tudo para trás, tivessem feito a personagem evoluir? Agarrando por exemplo numa fase dos comics de que gosto bastante, o Peter Parker professor de liceu dos anos de J. Michael Straczynski e John Romita Jr.? Ora aí está algo que pode revitalizar realmente o Homem-Aranha no grande ecrã.

Fica para o próximo reboot.

 

 

6/10

 

 

 

publicado por RJ às 22:31
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Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

Na Antártida também ninguém te ouve gritar

 

"The Thing"

 

MacReady: Why don't we just wait here for a little while... see what happens...

 

 

Está prestes a estrear um remake disfarçado de prequela de um dos meus filmes de ficção-científica favoritos. Isso não me deixa nada contente, e duvido muito que digne tamanha barbaridade com cinco euros gastos num bilhete de Cinema...

Somos atacados quase semanalmente por filmes que são remakes, prequelas ou ambos. Não o podemos negar, e também não o podemos evitar. Perante esta terrível realidade só há uma coisa a fazer: divulgar o máximo possível os filmes originais e mostrar o amor que temos por eles.

Devemos fazer isto porque este proliferar de remakes significa que a maioria dos elementos das gerações mais jovens vão crescer a adorar versões modernizadas de clássicos do Cinema, desconhecendo esses mesmos clássicos, porque é cultivada uma mentalidade que diz que o que é velho é inferior. O que é moderno, o que é o mais actual possível, é necessariamente superior às criações de décadas passadas, ameaçando reduzi-las a poeirentas peças de museu.

Clássicos como os de John Carpenter não são peças de museu. Brota deles uma vitalidade superior à maior parte dos filmes dos anos 2000, o que aumenta ainda mais a tristeza de os ver serem alvo de remakes.

 

Antes de mais é necessário esclarecer uma coisa: o "The Thing" de John Carpenter não é completamente original. O que não quer no entanto dizer que seja um remake. Inspirou-se no filme de 1951 "The Thing From Another World", que por sua vez foi inspirado pelo conto "Who Goes There?" de John W. Campbell Jr., mas em vez de refazer o filme de 1951, Carpenter fez uma adaptação mais fiel do conto original, e criou uma história, personagens e ambiente, segundo as suas próprias fórmulas. A marca pessoal do realizador é mais do que evidente em todo o filme.

 

Uma das coisas que não tenho qualquer problema em admitir em relação a "The Thing", é que é dos filmes mais assustadores que já vi, (assim como um outro filme de Carpenter, "Halloween", mas desse falarei noutra altura). Aliás, no género de terror/ficção-científica devo dizer que é o meu filme de eleição, acima do "Alien". E eu adoro o "Alien".

Os dois filmes podiam muito bem ser primos directos, e há que dar os louros a quem pertencem: o "Alien", que estreou primeiro, influenciando sem dúvida Carpenter, não deve por esse mesmo motivo ser esquecido quando se fala no "The Thing". Sem o filme de Ridley Scott, talvez não tivesse existido o de John Carpenter. Apesar do conto em que se baseou Carpenter ser muito anterior ao "Alien", as sensações transmitidas pelo "The Thing", derivam do estilo da obra de Scott.

O tema central dos filmes é essencialmente igual: claustrofobia e situação limite de sobrevivência. Um pequeno grupo de pessoas é atacado por um extraterrestre num local fechado e afastado da civilização, e obrigado a lutar para sobreviver.

À primeira vista, a claustrofobia provocada pelo "Alien" parece ser maior. O pequeno grupo de pessoas está aí à deriva numa pequena nave espacial, pelo Espaço profundo, um vazio a anos-luz de casa, enquanto que as personagens de "The Thing", mesmo estando num local remoto, têm a sorte de ao menos estarem na Terra. No entanto, a claustrofobia criada por Carpenter parece-me ter contornos que a tornam mais próxima a nós próprios, e mais perturbadora.

 

É verdade que no Espaço ninguém te ouve gritar, mas na Antártida também não. Não é preciso ir para outra galáxia para perder qualquer hipótese de contacto com outros seres humanos, podemos facilmente perdê-lo na Terra, e esta é uma das principais mensagens do filme.

Uma mensagem que, aliás, se torna ainda mais significativa no presente. Temos satélites, GPS e todo o tipo de aparelhos de comunicação altamente desenvolvidos, porém, se estas ferramentas deixam de funcionar, ficamos rendidos ao medo e à paranóia, e temos de lutar pela sobrevivência recorrendo aos nossos instintos básicos. E a tecnologia não aumentou a nossa solidariedade. No meio do gelo, debaixo de uma tempestade e sem meios para pedir auxílio, colocamos a nossa sobrevivência acima de qualquer respeito por uma vida humana que não seja a nossa.

 

Depois, a Coisa é muito, mas muito mais assustadora do que o Alien.

Temos medo do Alien como teríamos medo de um lagarto gigante. O Alien tem uma forma específica, que é nojenta e sanguinária, sim, mas ainda assim tem uma forma concreta. Está mais perto de seguir as leis da Natureza por nós conhecidas do que a Coisa.

A Coisa é explicada por métodos científicos pelo cientista principal do filme, mas aquilo que este ser faz, viola todas as regras da existência do Homem. Assimila e imita formas de vida para sobreviver, mas consegue também destituí-las de todas as regras naturais que as tornam aquilo que são, e corromper as normas que dão forma aos corpos, pudendo tranformar um cão ou um homem em criações macabras, saídas dos nossos piores pesadelos.

O medo que temos da Coisa é visceral, porque esta criatura é isso mesmo, uma coisa, e uma coisa capaz de se multiplicar num infinito número de visões infernais. E mais assustador ainda, é o real golpe de génio da criação deste monstro, é que apesar de ser tão bizarro, pode fazer-se passar na perfeição pelo nosso melhor amigo.

O aspecto macabro deste visitante de outro mundo é produto daqueles que são dos melhores efeitos especiais da história do Cinema, feitos mesmo "a sério", sem nada de CGIs. É uma pena que se esteja a perder a arte dos efeitos especiais físicos face aos efeitos feitos por computadores, porque por mais realista que seja um efeito especial digital, nunca tem a sensação de realidade de algo que foi mesmo feito de verdade, seja uma criatura ou uma explosão. E isso inclui até o "Avatar".

 

Dir-se-ia que "The Thing" não poderia ter nada mais assustador do que o que já descrevi. Mas tem. É o final, aquele extraordinário final.

Um dos objectivos ao deixar aqui este texto é dar a conhecer o filme, ou motivar quem não tenha sentido interesse em vê-lo. Aconselho portanto quem não tenha visto o filme, a que o veja antes de ler o resto do artigo, pois o seu final é mais eficaz se tiver do seu lado o elemento surpresa.

 

O final de "The Thing" é uma síntese de todo o Cinema de John Carpenter, do seu estilo, do seu terror, dos seus temas e avisos à humanidade. É profundamente niilista, com aquela aura de colapso inevitável da civilização que o realizador já tinha mostrado em "Escape From New York".

Ao fim de duas horas de filme, já tinha visto muitas imagens macabras capazes de me assombrar durante vários dias, mas aquilo que mais me marcou, foi o final, e nunca o esqueci. A sensação de solidão total atinge o pico no fim, e o medo também. E é tão brilhante por ser tão simples: são dois homens a falarem um com o outro, no meio de destroços e labaredas.

Muito provavelmente, um deles é a Coisa, mas não sabemos qual. Eles próprios estão desamparados, e exaustos. A imagem de cansaço que o MacReady de Kurt Russell exibe é tão humana, que se torna no ingrediente secreto que faz toda a cena funcionar tão bem. Depois da loucura porque passou, da corrida desenfreada pela sobrevivência, sentar-se e beber é a resposta natural. E foi esta naturalidade que, a par da minha admiração pela coolness de Kurt Russell, sempre me fez apostar em MacReady como o sobrevivente humano.

Porém, seja ou não MacReady o humano, existe um filme inteiro para ser contado depois do filme. Mas antes que isto dê ideias para sequelas a alguém, a eficácia do final de "The Thing" está intimamente ligada ao facto de que esta continuação é um filme que não é suposto nós vermos.

A simples sobrevivência da Coisa, coloca todo um rol de questões que me assustam muito mais do que aquela cabeça com patas de aranha. Se a Coisa sobreviveu, é provável que consiga chegar à civilização e que provoque uma devastação sem fim na Terra.

E que resposta é que Carpenter dá a isto? Novamente a naturalidade de MacReady: não podemos fazer nada a não ser recuperar algumas forças, e esperar para ver o que acontece. E o que acontece, acontecerá na nossa imaginação, assumindo a forma dos nossos medos pessoais.

 

Espero que se um dia a civilização acabar mesmo, este seja um dos filmes que sobrevive à destruição, para dar a conhecer a possíveis visitantes de outros mundos, a genialidade de uma das nossas maiores artes.

 

 

10/10

 

 

 

publicado por RJ às 23:18
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Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011

O triunfo da luz

 

"Midnight in Paris"

 

Adriana: That Paris exists and anyone could choose to live anywhere else in the world will always be a mystery to me.

 

 

Woody Allen já foi brilhante muitas vezes, de muitas maneiras diferentes. Já foi cómico, no sentido surreal e intelectual do termo, já analisou as idiossincracias da sociedade e dos seus habitantes neuróticos, já mostrou a face trágica dos relacionamentos, e já foi nostálgico. Sou fã de todas essas suas facetas, mas Allen nunca foi tão mágico e tão luminoso. E mais do que isso, uma obra sua nunca significou tanto para mim.

Já ganhou Óscares, e mesmo não sendo um realizador apreciado entre sectores demográficos muito alargados, o seu contributo à sétima arte está mais do que reconhecido. Com todos os triunfos aparentemente já conquistados, Woody Allen podia reformar-se e viver tranquilo à custa de velhas conquistas, seria o comportamento expectável. Ninguém diria que seria agora que iria produzir a maior das suas obras-primas.

Como é que isso foi possível? Simples. Porque apesar da atitude descontraída em relação ao que faz, o Cinema é aquilo que nasceu para fazer, e irá continuar a fazê-lo com uma paixão incansável.

  

Já simpatizei anteriormente com a personagem típica de Allen, e as dúvidas existenciais que foi expondo ao longo da filmografia do realizador. Porém, as dúvidas àcerca da finalidade da existência são algo com que todos nos identificamos, e são muito fáceis de ter. Não é difícil constatar que não há um sentido para a vida, que a existência do Homem é fruto do acaso ou que o ser humano tem falhas na forma como se relaciona entre si que provavelmente nunca irá contornar. Também não é difícil encontrar um sentido para a vida. Há imensas respostas, e são-nos atiradas à cara diariamente, tanto por livros de ajuda espiritual ou religiões mais ou menos sérias, como por anúncios de televisão. O que é mesmo difícil, é agarrarmo-nos a uma resposta, e construirmos um sentido para nós e para os outros a partir dela.

É esse o grande tema de "Midnight in Paris".

 

Mais do que simpatizar, identifico-me com Gil. Identifico-me com ele porque também sonho com a escrita, porque também adoro andar pelas ruas das cidades, tanto de dia como à noite, também vejo uma beleza refrescante quando esses passeios são feitos à chuva, e também me sinto diversas vezes perdido no tempo e no espaço. Partilho daquele sentimento nostálgico por uma época de ouro perdida algures no passado, e uma das minhas épocas de eleição são também os anos 20.

Gil é felizardo o suficiente para encontrar uma passagem para essa época de sonho, e além dos seus artistas de eleição, como Scott Fitzgerald e a sua esposa Zelda, Ernest Hemingway, Salvador Dalí e Cole Porter, conhece Adriana, a encarnação feminina perfeita daquele tempo, e não podia haver uma melhor Adriana que Marion Cotillard, a actriz mais bela da actualidade. Cotillard é abençoada com a aura de encanto de uma musa perfeitamente fora do seu tempo, o que a torna na personificação ideal de uma beleza distante e quase inatíngivel.

 

Graças ao talento de Allen para dar em pequenas frases e pequenos momentos uma grande dimensão às personagens, os heróis de Gil não são simples caricaturas. Só que também não são um retrato fiel, puro e duro, daquilo que foram estas pessoas na realidade. Um retrato assim teria de mostrar tanto o preto como o branco das suas vidas, assim como as áreas cinzentas da sua personalidade, e este é um retrato de um fã. Tem os seus alicerces na realidade que se conhece do período de vida destas celebridades em Paris, construindo a partir daí um retrato baseado na forma como Gil, e qualquer fã, as vê e como idealiza que fosse a sua companhia.

 

Esta personagem interpretada por Owen Wilson tem traços claros de Woody Allen, contudo é muito diferente do protagonista clássico do realizador. A "personagem de Woody Allen", que o próprio Woody Allen tantas vezes interpretou, intelectualizava demasiado a realidade, é alguém para quem a vida não faz sentido, enquanto que Gil é alguém que tem um sentido para a vida, só que este se encontra perdido numa época diferente.

Não é por acaso que a figura do intelectual moderno é satirizada neste filme através do pedante que Michael Sheen interpreta. Allen submete a perspectiva intelectual e estritamente racional de olhar o mundo, a uma paixão impressionante pela vida. Já retratou fielmente as batalhas existenciais dos intelectuais nova-iorquinos, mas esse era o tempo de "Annie Hall", um tempo que precisava desse olhar intelectual. O nosso presente precisa de redescobrir o amor pela sociedade humana seja de que maneira for, e Woody Allen apresenta-nos uma opção, redescobri-lo através de Paris.

Gil ama a vida porque ama Paris, tanto a do passado como a do presente, uma cidade que é um monumento ao que a sociedade humana é no seu melhor.

 

Os parentes mais próximos de "Midnight in Paris" são outras duas cartas de amor recheadas de nostalgia, "The Purple Rose of Cairo" e "Radio Days". Na primeira há um amor impossível entre uma personagem de Cinema e uma fã, na segunda, Woody Allen retrata o crescimento acompanhado pela rádio. Juntamente com esta viagem a Paris, são os momentos em que Allen se confessa comovido pelo passado, mas antes de Paris, o passado era apenas um bem perdido. Outro parente é "Manhattan", por já ter aí mostrado o amor por uma cidade como âncora da existência, e agora em Paris, adiciona esse amor ao sentimento de nostalgia, para criar o seu filme mais assumidamente bonito.

 

A nossa época precisa de um incentivo a abraçar a alegria da vida, e mais importante, precisa de um incentivo que ao contrário dos anúncios publicitários e dos finais cor-de-rosa, soe a algo verdadeiro. E "Midnight in Paris" tem uma joie de vivre impressionante, mas honesta. A realização final de Gil é amarga, mas necessária para que ele, e nós, saibamos como retirar alegria do nosso descontentamento com o tempo em que vivemos.

À meia-noite em Paris, triunfa a luz. O sonho da época de ouro ilumina-nos o presente, sempre que este é insatisfatório, porque é por isso que sonhamos com outros tempos. Precisamos de encontrar o melhor recanto possível do planeta, a nossa Paris, e depois sonhamos, para que esses sonhos dêem ao mundo que nos rodeia o que nele falta para se aproximar do nosso paraíso pessoal.

Acredite quem estiver a ler, que raramente me senti tão iluminado na escuridão da sala de Cinema. 

 

 

10/10

 

 

 

publicado por RJ às 02:24
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Sábado, 10 de Setembro de 2011

À sombra da bananeira

 

"The Ward"

 

Kristen: Look at me!
Sarah: Sorry, I don't converse with loonies.

 

 

John Carpenter é um realizador de culto, sendo o seu génio reconhecido sobretudo pelo seu grupo de fãs, que partilha entre si e venera as várias pérolas cinematográficas que criou ao longo da sua carreira. Não é muito apreciado pelo grande público, mas tem um nicho de admiradores incrivelmente forte, no qual eu me incluo. Incluo-me nesse nicho porque grande parte do meu primeiro contacto com o Cinema, foi feito através de clássicos como "Escape From New York" ou "Big Trouble in Little China".

Estamos perante um realizador que atingiu o seu pico na década de 80, os seus clássicos são prova de um estilo e de uma forma de desfrutar um filme, muito diferente dos dias de hoje. E a verdade é que Carpenter aterrou nos anos 2000 como um peixe fora de água, como já era visível no "Ghosts of Mars" de 2001, e como é ainda mais visível neste seu regresso.

A magia que fazia no seu auge já é difícil de reproduzir, porque vive-se o Cinema de forma diferente. J. J. Abrams ressuscitou o "estilo sci-fi familiar" de Steven Spielberg no "Super 8", criando uma homenagem fabulosa a esses bons velhos tempos, mas Carpenter resolveu seguir outro caminho, e adaptar-se para sobreviver.

 

É um filme de John Carpenter feito por um John Carpenter encostado à sombra da bananeira. 90% do filme é terror feito segundo o manual para iniciantes: a rapariguinha loira está bem, a câmara desvia-se, e quando volta está um cadáver em decomposição ambulante atrás dela e toda a plateia dá um gritinho, como se ninguém estivesse à espera... Os outros 10% são um final que, apesar de soar a cliché é executado com elegância suficiente para conseguir resultar.

Quando se estava à espera que tudo seguisse de facto o caminho do costume, Carpenter puxa a reviravolta que já todos conhecem da manga, e mesmo assim apanha-nos um pouco desprevenidos. É que por estar tudo a seguir um caminho tão previsível (as meninas vêem fantasmas mas ninguém acredita, o fantasma vai atacando as meninas uma a uma, etc), até um twist tão familiar como aquele se torna imprevisível.

 

Mesmo sendo terror segundo o manual básico, é feito por alguém que conhece o género de trás para a frente, e é por isso um filme que se vê bem como entretenimento. Só que em vez da aula de apresentação, o que queríamos mesmo ter visto era aquela aula em que a matéria começa mesmo a complicar-se. O argumento de "The Ward" nem sequer é do próprio Carpenter, o que talvez explique a sensação que tive de estar a ver um aluno brilhante a copiar o teste do aluno médio da turma. Ninguém está à espera que Carpenter supere o "Halloween", mas todos sabemos de que é capaz de muito melhor do que isto.

Espero que isto seja apenas o aquecimento para o grande regresso, e que John Carpenter nos dê em breve um clássico para os anos 2000 com o seu toque pessoal dos anos 80.  porque o Cinema de terror e sobrenatural está mesmo a precisar da sabedoria de um dos seus grandes mestres, nem que seja para contrariar o zombie do remake que já atacou os seus "Halloween" e "The Thing", e que tem andado a trabalhar numa maneira de dar também uma mordidela no Snake Plissken.

 

 

6/10

 

 

 

publicado por RJ às 15:34
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Terça-feira, 6 de Setembro de 2011

Space cowboys

 

"Cowboys & Aliens"

 

Meacham: God doesn't care who you were. He only cares who you are.

 

 

Cowboys a combater extraterrestres é uma ideia que faz surgir na minha mente três produtos finais distintos: uma comédia que satiriza dois géneros cinematográficos e a própria ideia de cruzamento de géneros; um filme de baixo orçamento do canal Syfy de qualidade altamente duvidosa, demasiado cheesy para nos conseguir sequer abstrair da realidade; e o filme mais épico de sempre, especialmente se os cowboys que combatem os extraterrestres forem o James Bond e o Indiana Jones.

Os primeiros guiões escritos para o filme lidavam com o conceito de forma mais cómica, só mais tarde é que se decidiu seguir a abordagem séria, a tal de fazer um entretenimento de contornos épicos. E é muito, mas mesmo muito difícil imaginar um filme em que cowboys lutem contra extraterrestes que não seja ridículo, mas vá-se lá saber como, durante as duas horas do filme, eu nunca duvidei de que houvesse naves espaciais a pairar sobre o Velho Oeste.

 

Se o "Super 8" foi o filme de ficção-científica fofinho do Verão, "Cowboys & Aliens" é a ficção-científica com injecção de esteróides. A tarefa que tinha para fazer, evitar que o espectador risse quando via uma nave perseguir durões do Oeste montados a cavalo, é cumprida, e em vez de observar tudo o que se passava no ecrã como algo ridículo, fui levado para dentro daquele universo e entretido de forma mais do que satisfatória. Não é um filme-pipoca do Michael Bay, está uns pontos acima porque não cai no exagero de cobrir completamente as planícies do Oeste de fogo-de-artíficio, e saca também mais uns pontos por ter executado bem o conceito original que apresenta. O desenvolver da história oferece alguns pormenores que ajudam a que a invasão extraterrestre não seja um cliché tão grande como costuma ser, e que adequam estes visitantes do Espaço ao ambiente dos cowboys.

Daniel Craig e a lenda viva que é Harrison Ford não deslumbram, mas fazem o que era esperado para o tipo de filme que é. Craig cumpre, como sempre, os requisitos de protagonista durão. Se o seu James Bond era capaz de entrar na Casa Branca só à força de murros e pontapés, este Jake Lonergan roubava o Fort Knox com um punho atrás das costas. Ainda que, claro, se o cowboy durão fosse o Clint Eastwood, os extraterrestres não tinham sequer chegado a aterrar. A Olivia Wilde, é a indispensável presença feminina, para não termos de estar só a olhar para homens barbudos durante duas horas, mas aguardo por a ver noutro tipo de projectos porque me parece que é uma actriz que ainda tem muito para dar.

 

É entretenimento vindo de quem sabe como entreter sem reduzir demasiado o nosso QI, que cruza eficazmente dois géneros que à partida, reagiriam à presença um do outro como a água e o azeite. Só a imagem da figura cowboy de Craig a abater extraterrestres com uma arma futurista, com a rapidez de um Lucky Luke basta para compensar qualquer dinheiro extra gasto em tempo de crise, e compra uma tarde muito bem passada. Caramba, são o James Bond e o Indiana Jones no Velho Oeste a combaterem extraterrestres, se essa premissa não vos convence não sei que mais o fará, porque "Cowboys & Aliens" é isto, uma autêntica fantasia saída da cabeça de miúdos que gostam de levar as suas personagens preferidas para cenários impossíveis no recreio da escola.

 

 

7.5/10

 

 

 

publicado por RJ às 20:48
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Sábado, 30 de Julho de 2011

Despedida da infância

 

"Harry Potter and the Deathly Hallows - Part II"

 

Harry Potter: Why are you here, all of you?
Lily Potter: We never left.

 

 

Harry Potter percorreu um longo caminho desde que abandonou aquele pequeno armário debaixo das escadas para conhecer um mundo mágico. Nesses dias, dava os primeiros passos para a entrada na adolescência, e via as suas esperanças de criança tornarem-se realidade. Depois, já adolescente, aprendeu que além de o mundo poder ser mágico, pode ser mau, muito mau, e que muitos adultos abandonaram definitivamente as suas esperanças de criança. Agora, Harry torna-se um adulto, o que, com todas as responsabilidades que acarreta, significa que é a sua vez de transformar o mundo.

 

O que faltou a Harry Potter, foi essencialmente uma visão de conjunto. Os primeiros filmes foram feitos quando o final da história ainda estava em aberto, e foram quatro os realizadores que preencheram a pouco e pouco o mundo de Hogwarts, cada um à sua maneira. A falta da visão de conjunto fez com que, em certos aspectos, a saga não seja um produto tão coeso como deveria ter sido. Nem sempre se deu real tempo de antena às coisas que eram fundamentais para a história, e as coisas iam passando demasiado depressa, (o que foi particularmente visível no "Order of the Phoenix", o filme mais fraco).

Mas ter ainda um ou dois filmes pela frente é muito diferente de estar a fazer o último filme, e nota-se que a responsabilidade de ter de encerrar com chave de ouro surtiu um efeito positivo. Fizeram-se cortes apropriados na história, como o do passado de Dumbledore, mas felizmente não se resolveu à pressa a sub-história de Snape, que era a parte do livro em relação à qual eu estava com mais receios, devido à forma atabalhoada como a série tratou em filmes anteriores os flashbacks.

Um dos grandes trunfos da série foi Alan Rickman, e neste capítulo final, os louros são entregues ao seu Severus Snape com o devido cuidado. Juntamente com a cena da Floresta Proíbida, a viagem às memórias de Snape é das melhores cenas deste filme, e de toda a saga, e parte fundamental do ritual de passagem. Faz parte do ser adulto, a consciência de que o mundo não é preto e branco, e a descoberta do Bem em pessoas em que antes viamos apenas o Mal, e vice-versa.

 

Algumas das poucas cenas atabalhoadas do filme, são curiosamente (ou não), igualmente atabalhoadas no livro, como a morte do velho guia de Harry, o professor Lupin. Aqui, foi fruto do querer ser fiel ao livro, quando talvez tivesse sido melhor tomar alguma liberdade criativa. É das adaptações da saga mais fiéis, aspecto novamente revelador do desejo de não desiludir os fãs.

O trio principal também não se desleixou, e como poderia? Era sobre eles que grande parte das expectativas recaíam. Emma Watson convence-me de que será quem terá mais hipóteses de um excelente futuro profissional "pós-Potter", o que já vem do filme anterior, em que, juntamente com Rupert Grint teve mais espaço para brilhar e mostrar do que é capaz. Nesta segunda parte, o foco vai para Harry, e Daniel Radcliffe dá-nos uma das suas melhores prestações da saga. Emma pode ser quem tem mais talento, mas apesar das críticas, sempre achei Daniel um excelente retrato do Harry que via nos livros. Foi alguma falta de atenção a cenas emocionalmente fortes anteriormente que por vezes o impediu de ir mais além. Logo, assumindo-se o triste ambiente de despedida, teve mais espaço para brilhar. Soube lidar bem com as cenas emocionais que mais significado têm para a sua personagem, e para a história no geral, e assume-se sem medos como Harry.

 

Harry percorreu de facto um longo caminho, mas nós também. Ele cresceu, e nós crescemos com ele. Este é o significado fundamental que as suas aventuras têm, pois mais do que uma história de feiticeiros e criaturas mágicas, a sua saga é uma crónica das fases do crescimento que nos levam, como a ele, a entrar na idade adulta. A ver "Harry Potter and the Deathly Hallows - Part II" não nos estamos só a despedir de Harry Potter, estamos a despedir-nos de quem éramos quando começámos a acompanhá-lo.

É surreal pensar que já não voltaremos a entrar na sala de Cinema para o ver, e mesmo depois de as luzes se apagarem não acreditamos. É a parte mais difícil da passagem para o mundo dos crescidos, conseguir reunir coragem para nos despedirmos da criança de outrora.

Harry também tem de reunir essa coragem, e o momento da despedida chega-lhe na Floresta. É claramente o ponto em que o jovem dá lugar ao adulto, reconciliando-se com o seu Passado através de uma visita final dos adultos que o protegeram, para tomar o lugar destes. Não admira que um pouco por toda a sala, caiam algumas lágrimas.

 

Quando nos tornamos adultos, chega a tendência para duvidarmos dos sonhos e das esperanças que tivemos quando éramos crianças. Dumbledore aparece para tranquilizar Harry, e para nos tranquilizar a nós. O que é dito a Harry mais não é do que a própria autora, J. K. Rowling a falar. As palavras são algo poderoso, e os sonhos da infância e da adolescência não devem ser esquecidos, se nos queremos tornar em adultos capazes de ajudar e compreender as crianças do futuro.

O epílogo da história, destina-se a essas crianças. Até agora, a saga teve um lugar especial nos corações de uma ou duas gerações, e essas gerações estarem a despedir-se de Harry no Cinema não deve significar que outras não o possam descobrir. O comboio da estação nove e três quartos estará lá, para ser apanhado por todos os que no futuro quiserem conhecer ou revisitar o mundo mágico, e será isso que tornará esta história eterna.

Claro que tudo aconteceu na nossa cabeça, mas porque é que isso haveria de significar que o tempo que passámos com Harry não foi verdade?

 

 

9/10

 

 

 

publicado por RJ às 07:27
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Sábado, 23 de Julho de 2011

O labirinto urbano

 

"After Hours"

 

Paul Hackett: I want to live.

 

 

Sou o tipo de pessoa a quem acontecem muitas coincidências, do género, sentar-se ao meu lado numa sala de Cinema alguém que conheço, totalmente por acaso. Logo, filmes sobre o acaso atraem-me.

Costuma-se dizer que o mundo é pequeno, mas não creio que o problema seja esse. A confusão criada pela colisão constante dos milhões de vidas humanas é que é demasiado grande. "After Hours", uma pérola de Martin Scorsese injustamente esquecida, retrata esta confusão.

 

É igualmente parte da sabedoria popular que cada cidade é na verdade, duas cidades. Uma de dia, outra de noite. E a noite é por definição, o espaço da ilegalidade, do proíbido. O Homem, à semelhança das cidades, é também duplo, diferente à noite daquilo que é durante o dia. À noite cede mais facilmente ao instinto, perde mais facilmente o controlo. Na noite, podemos esquecer aquilo que somos.

 

O protagonista é um de nós. Tem uma vida pacata e previsível como empregado de escritório, nada de grandes agitações nem aventuras, até que, como não poderia deixar de ser, conhece uma mulher. Uma mulher num café ao final da noite que o convida a segui-la para a baixa de Nova Iorque. E quantos de nós não nos perguntámos já sobre o que teria acontecido se tivessemos ido atrás daquela rapariga que conhecemos no comboio, no metro, no café? São as infinitas possibilidades deixadas por estes encontros formados pelo acaso, e aquele homem comum, arriscou persegui-las.

 

Inevitavelmente, o que parecia algo terrivelmente simples torna-se incrivelmente complicado. Seguir a mulher enigmática do café será apenas o primeiro passo para uma sucessão de incríveis coincidências que mergulham Paul numa espiral de acontecimentos que o afasta cada vez mais do regresso a casa. Por mais que tente, falta sempre realizar mais uma tarefa que lhe comprará o regresso, mas a teia do acaso não o solta, por muito que ele se debata. Tudo o que podia acontecer, acontece, e tudo o que podia correr mal, corre mal.

É um misto de comédia sobre coincidências e viagem em direcção a um estado de paranóia, que nos deixa tão absorvidos na teia que vai tecendo como o próprio protagonista, fruto de um argumento verdadeiramente brilhante e de um Scorsese inspirado no estilo do mestre do suspense, Alfred Hitchcock.

A cada reviravolta a ansiedade cresce, alimentando a nossa frustração de ver Paul regressar finalmente a casa, sem nunca se perder um humor irónico que impede o filme de ter um tom excessivamente pesado, que conduzisse mesmo o protagonista e o espectador à insanidade.

Os twists são brilhantes, usando pequenos pormenores para se entrelaçarem, e apoiando-se em coincidências que mesmo sendo improváveis, nunca caem no exagero. A impedir o exagero está, além do sentido de humor, uma lógica na formação da grande cadeia do acaso, que termina tudo em full circle. O final é o melhor que se poderia imaginar, não creio que houvesse forma mais brilhante de terminar aquela longa noite.

 

Griffin Dunne é perfeito como protagonista por representar na perfeição alguém que podia ser qualquer um de nós. Parece ter passado da realidade para a tela de Cinema. E é impressão minha, ou parece-se um pouco com uma versão mais nova do próprio Scorsese?

 

Uma obra-prima de Martin Scorsese, que retrata o quão louca pode ser a baixa de Nova Iorque à noite, e o quão poderoso é o efeito das coincidências.

Se estiverem à procura de uma aventura já sabem, sigam a mulher enigmática do café.

 

 

9/10

 

 

 

 

publicado por RJ às 01:58
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Quinta-feira, 16 de Junho de 2011

Os épicos anos 60

 

"X-Men: First Class"

 

Charles Xavier: Listen to me very carefully, my friend. Killing Shaw will not bring you peace.

Erik Lensherr: Peace was never an option.

 

 

Tudo corria conforme planeado no mundo das adaptações cinematográficas dos super-heróis. Os dois primeiros "X-Men" (especialmente o "X2"), foram excelentes blockbusters que transpuseram muitíssimo bem o mundo dos X-Men para a actualidade, e o "Spider-Man 2" elevou a fasquia ao recriar no grande ecrã a empatia que sentíamos pelo Aranhiço quando líamos os comics, graças ao facto de Peter Parker enfrentar, quando está sem máscara, o mesmo tipo de problemas do quotidiano que qualquer ser humano normal enfrenta. Os terceiros filmes de ambas as sagas acabam por cair no comum erro de "excesso de porrada e demasiadas personagens", e encerram-se duas trilogias àquem das expectativas. É então que surge um indivíduo chamado Christopher Nolan que prova que podíamos fazer muito mais do que produzir simplesmente um sentimento de identificação do espectador com o protagonista da aventura saída dos quadradinhos: podíamos desafiar o espectador.

Depois disto a Marvel recupera terreno com o primeiro "Iron Man", uma adaptação descomprometida de puro entretenimento, à qual sucedeu uma sequela fraca cheia dos clichés do entretenimento da pipoca. Ficou claro que o homem-morcego era o adulto, e que os outros estavam presos no excesso de hormonas da adolescência.

 

Gostaria desde já de deixar claro que apesar de considerar que o "The Dark Knight" é a melhor adaptação de um comic de sempre, não acho que seja um filme de super-heróis. Não só porque as raízes do Batman não são as de um super-herói convencional, mas porque o "The Dark Knight" é sobretudo um thriller/policial (assim como o "Batman Begins"), e é dentro desse género que considero estar no topo.

 

Ora a lição de Nolan parece ter surtido efeito, e como que caído dos Céus, chega-nos este "X-Men: First Class" de Matthew Vaughn. Meio prequela, meio reboot, conta a história da revelação da existência dos mutantes, da formação dos X-Men e da amizade caída em desgraça de Charles Xavier e Erik Lensherr, futuros Professor X e Magneto.

Tal como Nolan, Vaughn não teve medo de correr riscos e de ser original, rejeitando a hipótese de fazer um reboot que colocasse os X-Men novamente no presente, e leva-os até à década de 60, em plena Guerra Fria e Crise dos Mísseis de Cuba. Face a um universo de espectadores que se habituou à modernização dos super-heróis, isto foi de facto um risco, e talvez explique porque é que apesar de um incrível sucesso a nível de crítica, o filme está com resultados de bilheteira inferiores aos dos seus antecessores.

 

O cenários dos sixties resulta na perfeição. Enquadrar as personagens em acontecimentos históricos reais torna a história muito mais cativante, e ajuda a que a ameaça da Terceira Guerra Mundial não pareça enfadonha. As ameaças de "fins do mundo" pertencem naturalmente aos anos 60, quando as nações receavam um iminente holocausto nuclear, que na realidade, esteve muito perto de acontecer. É uma história que tirando a parte de envolver pessoas com super poderes, podia perfeitamente pertencer a um filme do James Bond. E é dos James Bond de Sean Connery que Vaughn parece ter retirado grande parte da inspiração.

O vilão é tipicamente Bondiano, com o seu plano de concretizar as ameaças da Guerra Fria, o seu submarino e a sua femme fatale que apesar de estar quase sempre em roupa interior é uma mulher cheia de classe, (essa divindade chamada January Jones, pois). E Kevin Bacon dá o tom sinistro certo ao papel, e não deixa que o seu Sebastian Shaw se torne demasiado parecido a uma caricatura. Não posso deixar ainda de referir a interpretação dessa surpreendente jovem actriz de nome Jennifer Lawrence, que depois de um salto para a fama com aquele murro no estômago de nome "Winter's Bone", se torna numa belíssima Mystique.

É ainda impressionante como, tendo um vilão com ambições tão megalómanas, o filme não cai no exagero. Vaughn não é um Michael Bay, e as cenas de acção não abusam da pirotécnia e não conduzem à acumulação de montanhas de sucata. Era fácil cair na tentação de fazer batalhas com bolas de fogo gigantes e arrasar cidades inteiras, especialmente tendo a oportunidade de usar as mais diversas habilidades mutantes, e isso podia valer prémios nos concursos internacionais de CGI, mas não iria manter o espectador agarrado ao ecrã. Ver cidades explodir já não impressiona ninguém, o que impressiona é quando se consegue fazer com que a acção sirva como momento de desenvolvimento das personagens. A luta final (esse desfecho fundamental no universo dos super-heróis), que podia tão facilmente ter caído no exagero ridículo, é incrivelmente intimista, e nunca deixa de focar as personagens e a evolução dos seus percursos, e isso faz com que nos surpreendamos de facto com o que estamos a ver.

 

O Erik de Michael Fassbender é também ele muito Bondiano, e torna-se a verdadeira estrela do filme. Erik Lensherr podia ser facilmente confundido com uma versão implacável de um jovem Bond dos anos 60, e quando digo "implacável" quero mesmo dizer implacável. Vaughn não tem problema em mostrar violência quando esta é necessária para aumentar a intensidade e tornar a sede de vingança de Erik palpável. O que faz dele a personagem mais badass de sempre do género. Sim, ainda mais badass que o Wolverine de Hugh Jackman, (que já agora, faz um cameo memorável).

Fassbender faz ainda a melhor interpretação que o género alguma vez viu, merecedora de uma nomeação ao Óscar. Sentimos que estamos a ver um homem cujo coração foi irremediavelmente quebrado pela crueldade do ser humano, o que faz com que sintamos compaixão por ele, apesar de vermos como consegue ser brutal. É muito mais do que fazer o espectador simpatizar com o futuro vilão, é fazê-lo sentir-se desafiado por quem ele é, e o que representa.

Tudo isto coloca também Erik num balanço perfeito com o Charles Xavier de James McAvoy (que apesar de ser superado por Fassbender, também foi um casting perfeito), o reverso pacifista da medalha. O nascimento de Magneto está intimamente ligado à amizade com Charles, e é esta amizade a peça fundamental para que "X-Men: First Class" se torne lendário. A quebra desta amizade, provocada pela caída nas trevas do jovem Magneto, dá uma densidade dramática invulgar ao filme, que o eleva mesmo ao estatuto dos inesquecíveis. O arrepiante momento em que o abismo se abate finalmente entre os protagonistas , é verdadeiramente épico.

 

A obra-prima de super-heróis que o Cinema merecia.

 

 

9/10

 

 

 

publicado por RJ às 22:56
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Sábado, 28 de Maio de 2011

O bom velho amigo

 

"Pirates of the Caribbean: On Stranger Tides"

 

 

Jack Sparrow: Did everyone see that? Because I will not be doing it again.

 

 

Até a melhor piada de sempre faz-nos rir mais quando a ouvimos pela primeira vez, do que quando a voltamos a ouvir. Faz parte da natureza do humor. Porém, pode continuar a arrancar-nos sorrisos e a pôr-nos bem dispostos. É um pouco isto que se passa com os Piratas das Caraíbas.

 

Eu sou fã do Johnny Depp, e acho o seu Jack Sparrow um dos melhores (anti)heróis de sempre do Cinema. Agora, nada se vai comparar à aventura em que conheci Jack Sparrow. Nem pensar, esse primeiro encontro foi lendário. Estávamos em 2002, numa altura em que Johnny Depp ainda não era um actor cujo nome toda a gente conhecesse, e dou por mim a ir ver um entretenimento de piratas sobre o qual não sabia absolutamente nada. Ao fim de uns dez minutos estava rendido ao filme e ao cromo criado por Depp.

Apesar de ser uma personagem tão diferente daquilo que estávamos habituados a ver no Cinema, conseguia apaixonar todos os tipos de público. E não demorou muito a tornar-se num ícone, meu e de imensas outras pessoas.

Seguiram-se duas sequelas, que tornaram o universo dos Piratas cada vez mais épico até lhe darem uma mitologia imensa que se distanciava da simplicidade da primeira aventura, mas continuei a adorar os filmes. Encerrou-se um ciclo, chegaram ao fim as histórias das personagens de Keira Knightley e Orlando Bloom, saiu Gore Verbinski da realização, mas Jerry Bruckeimer e a Walt Disney não resistiram a continuar a saga. Afinal, a tentação dos milhões nas bilheteiras é sempre muito grande.

 

Depois das críticas ao terceiro filme o objectivo foi simplificar e fazer algo mais parecido com o primeiro, e a história menos super-épica ajuda a que "Pirates of the Caribbean: On Stranger Tides" acabe por resultar. Mas claro que se nota o cansaço da fórmula. Lá está, as boas piadas resultam sempre melhor à primeira, e já vamos na quarta vez.

A história do vilão que é "o pior pirata de sempre" já é menos intimidante depois de termos tido Barbossa e Davy Jones com essa etiqueta anteriormente, apesar de Ian McShane fazer um bom trabalho como Blackbeard. Foi uma boa decisão terem deixado a tripulação zombificada em segundo plano, porque convenhamos, já vimos uma tripulação-esqueleto e uma tripulação de homens-peixe, estes ao pé desses são uns meninos. Acaba por ser o controlo mágico que Blackbeard tem sobre o seu navio a resultar bastante bem, porque é mais subtil do que os esqueletos e os homens-peixes, e cria uma ameaça interessante que não abusa do CGI.

É também por este motivo que a adição das sereias acaba por ser eficaz, e a personagem de Syrena oferece uma sub-plot interessante (que introduz uns curiosos pózinhos de questões religiosas), porque felizmente se resistiu à tentação de as usar como substitutas da tripulação-peixe de Davy Jones. O sobrenatural parece estar mais sobre controlo neste filme, em vez de brotar de todos os lados como aconteceu no "At World's End". Quanto a isto, podemos provavelmente agradecer ao facto de termos um novo capitão ao leme do projecto, Rob Marshall.

As ameaças acabam por vir mais das motivações das personagens, nomeadamente da relação entre Jack e a sua ex-amada Angelica, uma pirata fogosa bastante apropriada a Penélope Cruz, e dos planos de vingança de um Barbossa que deixou a carreira de pirata, o que aproxima realmente o filme do espírito da primeira aventura.

 

Ver simplesmente Jack Sparrow em acção, a fazer planos à medida que vai avançando, a envolver-se em peripécias mirabolantes e a sair delas com descontracção, os seus maneirismos e a sua forma palavrosa de comunicar, bastam para me deixar bem disposto. Ele é um velho amigo que gostamos sempre de rever, aquele amigo que nos deixará sempre intrigados a pensar "o que é que ele andará a planear agora?". Este seria um bom ponto final na saga, mas a verdade é que estarei sempre disposto a voltar a ver o que é que Jack está a planear, porque há poucos heróis tão apaixonantes como ele.

 

Por muito que qualquer um de nós seja fã de Jack Sparrow, não tenho dúvidas de que o seu maior fã é o próprio Johnny Depp. Jack foi quase na totalidade uma criação de Depp, e é provavelmente a personagem que o actor mais se divertiu a interpretar. Por isto é que não resistiu a regressar, e na verdade, a continuação da saga depende completamente dele. Piratas das Caraíbas É Jack Sparrow, e serão os sentimentos de Depp relativamente às ideas para sequelas que determinarão se o veremos ou não de novo. E eu confio no seu julgamento.

 

 

8/10

 

 

 

publicado por RJ às 23:42
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Sexta-feira, 15 de Abril de 2011

Acompanhamento intelectual para as pipocas

 

"Source Code"

 

Colter Stevens: What would you do if you knew you only had one minute to live?
Christina Warren: I'd make those seconds count.
Colter Stevens: I'd kiss you again.
Christina Warren: Again?

 

 

O Capitão Colter Stevens, interpretado por Jake Gyllenhaal, é enviado para o corpo de um homem que morreu num atentado a um comboio em Chicago, nos oito minutos anteriores à morte deste homem, para descobrir o autor do atentado e conseguir impedir um segundo ataque. Pelo meio começa a considerar se não será possível interferir, e salvar as vidas das pessoas a bordo do comboio.

Dito assim, parece a base de mais uma habitual pipocada à Hollywood, a ser servida com doses mais do que razoáveis de pirotécnia, um interesse amoroso metido à pressão e o habitual final feliz, com uma lição de moral escolhida de entre as várias que o estúdio comprou aos pacotes e tem de injectar nos filmes. Cobre-se a falta de credibilidade com a desculpa do "projecto governamental secreto", e a premissa original de ficção-científica pouco interessa ao fim de meia-hora de filme, altura em que a pirotécnia já deve estar a ser preparada e não dá jeito que o espectador esteja a pensar muito.

Felizmente, Duncan Jones tinha outros planos, e "Source Code" foge aos padrões do típico blockbuster.

 

"Source Code" é bastante minimalista no que diz respeito a cenários e efeitos especiais. O herói viaja naquilo que é aparentemente uma cápsula metálica bastante claustrofóbica, e a única pirotécnia presente é na explosão do comboio, que apesar de acontecer muitas vezes não se torna irritante. Jake Gyllenhaal está seguro, e consegue construir um protagonista sólido e bastante humano, o que não era fácil devido aos recursos limitados que tem para o explorar. Michelle Monaghan não impressiona, mas convenhamos que não tinha muito espaço para explorar a sua personagem, e torna-se apenas competente e agradável de ver, como não puderia deixar de ser.

 

Jones já tinha surpreendido com "Moon", e era portanto um desperdício caso se rendesse à ditadura comercial dos grandes estúdios. Ora contrariando esta tendência, ofereceu ao panorama da ficção-científica made in USA uma lufada de ar fresco. Não se deixem enganar pelo trailer, "Source Code" é mesmo ficção-científica a sério.

Em vez de estupidificar um conceito potencialmente complexo, o que se fez foi aumentar-lhe a complexidade. Estava à espera que fosse usado o esquema das viagens do tempo, com os twists dos paradoxos temporais que já se tornaram quase lugares comuns, mas Duncan Jones recusou o caminho fácil. Em vez de se limitar a enviar Colter Stevens atrás no tempo, é usado o conceito das realidades paralelas, que obriga o espectador a prestar mesmo bastante atenção ao filme, e a dar bastante uso às suas células cinzentas.

Isto é muito refrescante, dado que a ficção-científica parece passar nos dias que correm por filtros estupidificantes, com Hollywood a limitar-se a usar as premissas, enchendo o resto de fogo-de-artifício. A ficção-científica tem pois participado nas histórias de filmes apenas como forma de dar as ideias iniciais, e a definição de ficção-científica tem-se tornado difusa. Para a maioria, ficção-científica é um qualquer cenário com carros voadores e arranha-céus futuristas, quando a verdade é que é muito mais do que isso.

 

E agora um grande alerta de SPOILER. Se ainda não viram o filme, não continuem a ler este post, pois irá revelar-vos o final da história. Ao referir aqui o final quero apenas dar criar a oportunidade de uma troca de ideias entre quem já viu o filme, partilhando as minhas teorias sobre ele.

 

Apesar de tudo até acabar relativamente bem, vale a pena destinar algum tempo a analisar o final do filme. Stevens regressa mais uma vez à realidade paralela através do source code, e salva todos os passageiros. Goodwin põe um fim ao seu estado vegatativo, permitindo que (aparentemente) ele descanse em paz. Mas Stevens, ao ter salvo os passageiros, criou uma nova realidade, um novo mundo, como ele próprio nos diz.

Este final é muito mais ambíguo do que parece à primeira vista, e tal ambiguidade foi intencionalmente deixada por Duncan Jones. É que Stevens continua no corpo de Sean Fentress, o que esconde uma verdade macabra: Fentress deixou de existir, Stevens substitui-o. Ou seja, o protagonista sacrificou a vida dele para desfrutar de uma vida feliz ao lado da sua namorada. Isto tira todo o heroísmo à acção final do protagonista, e torna-a muito ambígua do ponto de vista moral.

O filme desafia-nos assim a ir mais longe, e descobrir o que está além da superfície daquilo que parece ser um happy end.

 

Trata-se de ficção-científica a sério, para alargar horizontes, o que é mais necessário do que nunca ao panorama cinematográfico.

 

 

8/10

 

 

 

publicado por RJ às 23:02
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