Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

Na Antártida também ninguém te ouve gritar

 

"The Thing"

 

MacReady: Why don't we just wait here for a little while... see what happens...

 

 

Está prestes a estrear um remake disfarçado de prequela de um dos meus filmes de ficção-científica favoritos. Isso não me deixa nada contente, e duvido muito que digne tamanha barbaridade com cinco euros gastos num bilhete de Cinema...

Somos atacados quase semanalmente por filmes que são remakes, prequelas ou ambos. Não o podemos negar, e também não o podemos evitar. Perante esta terrível realidade só há uma coisa a fazer: divulgar o máximo possível os filmes originais e mostrar o amor que temos por eles.

Devemos fazer isto porque este proliferar de remakes significa que a maioria dos elementos das gerações mais jovens vão crescer a adorar versões modernizadas de clássicos do Cinema, desconhecendo esses mesmos clássicos, porque é cultivada uma mentalidade que diz que o que é velho é inferior. O que é moderno, o que é o mais actual possível, é necessariamente superior às criações de décadas passadas, ameaçando reduzi-las a poeirentas peças de museu.

Clássicos como os de John Carpenter não são peças de museu. Brota deles uma vitalidade superior à maior parte dos filmes dos anos 2000, o que aumenta ainda mais a tristeza de os ver serem alvo de remakes.

 

Antes de mais é necessário esclarecer uma coisa: o "The Thing" de John Carpenter não é completamente original. O que não quer no entanto dizer que seja um remake. Inspirou-se no filme de 1951 "The Thing From Another World", que por sua vez foi inspirado pelo conto "Who Goes There?" de John W. Campbell Jr., mas em vez de refazer o filme de 1951, Carpenter fez uma adaptação mais fiel do conto original, e criou uma história, personagens e ambiente, segundo as suas próprias fórmulas. A marca pessoal do realizador é mais do que evidente em todo o filme.

 

Uma das coisas que não tenho qualquer problema em admitir em relação a "The Thing", é que é dos filmes mais assustadores que já vi, (assim como um outro filme de Carpenter, "Halloween", mas desse falarei noutra altura). Aliás, no género de terror/ficção-científica devo dizer que é o meu filme de eleição, acima do "Alien". E eu adoro o "Alien".

Os dois filmes podiam muito bem ser primos directos, e há que dar os louros a quem pertencem: o "Alien", que estreou primeiro, influenciando sem dúvida Carpenter, não deve por esse mesmo motivo ser esquecido quando se fala no "The Thing". Sem o filme de Ridley Scott, talvez não tivesse existido o de John Carpenter. Apesar do conto em que se baseou Carpenter ser muito anterior ao "Alien", as sensações transmitidas pelo "The Thing", derivam do estilo da obra de Scott.

O tema central dos filmes é essencialmente igual: claustrofobia e situação limite de sobrevivência. Um pequeno grupo de pessoas é atacado por um extraterrestre num local fechado e afastado da civilização, e obrigado a lutar para sobreviver.

À primeira vista, a claustrofobia provocada pelo "Alien" parece ser maior. O pequeno grupo de pessoas está aí à deriva numa pequena nave espacial, pelo Espaço profundo, um vazio a anos-luz de casa, enquanto que as personagens de "The Thing", mesmo estando num local remoto, têm a sorte de ao menos estarem na Terra. No entanto, a claustrofobia criada por Carpenter parece-me ter contornos que a tornam mais próxima a nós próprios, e mais perturbadora.

 

É verdade que no Espaço ninguém te ouve gritar, mas na Antártida também não. Não é preciso ir para outra galáxia para perder qualquer hipótese de contacto com outros seres humanos, podemos facilmente perdê-lo na Terra, e esta é uma das principais mensagens do filme.

Uma mensagem que, aliás, se torna ainda mais significativa no presente. Temos satélites, GPS e todo o tipo de aparelhos de comunicação altamente desenvolvidos, porém, se estas ferramentas deixam de funcionar, ficamos rendidos ao medo e à paranóia, e temos de lutar pela sobrevivência recorrendo aos nossos instintos básicos. E a tecnologia não aumentou a nossa solidariedade. No meio do gelo, debaixo de uma tempestade e sem meios para pedir auxílio, colocamos a nossa sobrevivência acima de qualquer respeito por uma vida humana que não seja a nossa.

 

Depois, a Coisa é muito, mas muito mais assustadora do que o Alien.

Temos medo do Alien como teríamos medo de um lagarto gigante. O Alien tem uma forma específica, que é nojenta e sanguinária, sim, mas ainda assim tem uma forma concreta. Está mais perto de seguir as leis da Natureza por nós conhecidas do que a Coisa.

A Coisa é explicada por métodos científicos pelo cientista principal do filme, mas aquilo que este ser faz, viola todas as regras da existência do Homem. Assimila e imita formas de vida para sobreviver, mas consegue também destituí-las de todas as regras naturais que as tornam aquilo que são, e corromper as normas que dão forma aos corpos, pudendo tranformar um cão ou um homem em criações macabras, saídas dos nossos piores pesadelos.

O medo que temos da Coisa é visceral, porque esta criatura é isso mesmo, uma coisa, e uma coisa capaz de se multiplicar num infinito número de visões infernais. E mais assustador ainda, é o real golpe de génio da criação deste monstro, é que apesar de ser tão bizarro, pode fazer-se passar na perfeição pelo nosso melhor amigo.

O aspecto macabro deste visitante de outro mundo é produto daqueles que são dos melhores efeitos especiais da história do Cinema, feitos mesmo "a sério", sem nada de CGIs. É uma pena que se esteja a perder a arte dos efeitos especiais físicos face aos efeitos feitos por computadores, porque por mais realista que seja um efeito especial digital, nunca tem a sensação de realidade de algo que foi mesmo feito de verdade, seja uma criatura ou uma explosão. E isso inclui até o "Avatar".

 

Dir-se-ia que "The Thing" não poderia ter nada mais assustador do que o que já descrevi. Mas tem. É o final, aquele extraordinário final.

Um dos objectivos ao deixar aqui este texto é dar a conhecer o filme, ou motivar quem não tenha sentido interesse em vê-lo. Aconselho portanto quem não tenha visto o filme, a que o veja antes de ler o resto do artigo, pois o seu final é mais eficaz se tiver do seu lado o elemento surpresa.

 

O final de "The Thing" é uma síntese de todo o Cinema de John Carpenter, do seu estilo, do seu terror, dos seus temas e avisos à humanidade. É profundamente niilista, com aquela aura de colapso inevitável da civilização que o realizador já tinha mostrado em "Escape From New York".

Ao fim de duas horas de filme, já tinha visto muitas imagens macabras capazes de me assombrar durante vários dias, mas aquilo que mais me marcou, foi o final, e nunca o esqueci. A sensação de solidão total atinge o pico no fim, e o medo também. E é tão brilhante por ser tão simples: são dois homens a falarem um com o outro, no meio de destroços e labaredas.

Muito provavelmente, um deles é a Coisa, mas não sabemos qual. Eles próprios estão desamparados, e exaustos. A imagem de cansaço que o MacReady de Kurt Russell exibe é tão humana, que se torna no ingrediente secreto que faz toda a cena funcionar tão bem. Depois da loucura porque passou, da corrida desenfreada pela sobrevivência, sentar-se e beber é a resposta natural. E foi esta naturalidade que, a par da minha admiração pela coolness de Kurt Russell, sempre me fez apostar em MacReady como o sobrevivente humano.

Porém, seja ou não MacReady o humano, existe um filme inteiro para ser contado depois do filme. Mas antes que isto dê ideias para sequelas a alguém, a eficácia do final de "The Thing" está intimamente ligada ao facto de que esta continuação é um filme que não é suposto nós vermos.

A simples sobrevivência da Coisa, coloca todo um rol de questões que me assustam muito mais do que aquela cabeça com patas de aranha. Se a Coisa sobreviveu, é provável que consiga chegar à civilização e que provoque uma devastação sem fim na Terra.

E que resposta é que Carpenter dá a isto? Novamente a naturalidade de MacReady: não podemos fazer nada a não ser recuperar algumas forças, e esperar para ver o que acontece. E o que acontece, acontecerá na nossa imaginação, assumindo a forma dos nossos medos pessoais.

 

Espero que se um dia a civilização acabar mesmo, este seja um dos filmes que sobrevive à destruição, para dar a conhecer a possíveis visitantes de outros mundos, a genialidade de uma das nossas maiores artes.

 

 

10/10

 

 

 

publicado por RJ às 23:18
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