Sábado, 23 de Julho de 2011

O labirinto urbano

 

"After Hours"

 

Paul Hackett: I want to live.

 

 

Sou o tipo de pessoa a quem acontecem muitas coincidências, do género, sentar-se ao meu lado numa sala de Cinema alguém que conheço, totalmente por acaso. Logo, filmes sobre o acaso atraem-me.

Costuma-se dizer que o mundo é pequeno, mas não creio que o problema seja esse. A confusão criada pela colisão constante dos milhões de vidas humanas é que é demasiado grande. "After Hours", uma pérola de Martin Scorsese injustamente esquecida, retrata esta confusão.

 

É igualmente parte da sabedoria popular que cada cidade é na verdade, duas cidades. Uma de dia, outra de noite. E a noite é por definição, o espaço da ilegalidade, do proíbido. O Homem, à semelhança das cidades, é também duplo, diferente à noite daquilo que é durante o dia. À noite cede mais facilmente ao instinto, perde mais facilmente o controlo. Na noite, podemos esquecer aquilo que somos.

 

O protagonista é um de nós. Tem uma vida pacata e previsível como empregado de escritório, nada de grandes agitações nem aventuras, até que, como não poderia deixar de ser, conhece uma mulher. Uma mulher num café ao final da noite que o convida a segui-la para a baixa de Nova Iorque. E quantos de nós não nos perguntámos já sobre o que teria acontecido se tivessemos ido atrás daquela rapariga que conhecemos no comboio, no metro, no café? São as infinitas possibilidades deixadas por estes encontros formados pelo acaso, e aquele homem comum, arriscou persegui-las.

 

Inevitavelmente, o que parecia algo terrivelmente simples torna-se incrivelmente complicado. Seguir a mulher enigmática do café será apenas o primeiro passo para uma sucessão de incríveis coincidências que mergulham Paul numa espiral de acontecimentos que o afasta cada vez mais do regresso a casa. Por mais que tente, falta sempre realizar mais uma tarefa que lhe comprará o regresso, mas a teia do acaso não o solta, por muito que ele se debata. Tudo o que podia acontecer, acontece, e tudo o que podia correr mal, corre mal.

É um misto de comédia sobre coincidências e viagem em direcção a um estado de paranóia, que nos deixa tão absorvidos na teia que vai tecendo como o próprio protagonista, fruto de um argumento verdadeiramente brilhante e de um Scorsese inspirado no estilo do mestre do suspense, Alfred Hitchcock.

A cada reviravolta a ansiedade cresce, alimentando a nossa frustração de ver Paul regressar finalmente a casa, sem nunca se perder um humor irónico que impede o filme de ter um tom excessivamente pesado, que conduzisse mesmo o protagonista e o espectador à insanidade.

Os twists são brilhantes, usando pequenos pormenores para se entrelaçarem, e apoiando-se em coincidências que mesmo sendo improváveis, nunca caem no exagero. A impedir o exagero está, além do sentido de humor, uma lógica na formação da grande cadeia do acaso, que termina tudo em full circle. O final é o melhor que se poderia imaginar, não creio que houvesse forma mais brilhante de terminar aquela longa noite.

 

Griffin Dunne é perfeito como protagonista por representar na perfeição alguém que podia ser qualquer um de nós. Parece ter passado da realidade para a tela de Cinema. E é impressão minha, ou parece-se um pouco com uma versão mais nova do próprio Scorsese?

 

Uma obra-prima de Martin Scorsese, que retrata o quão louca pode ser a baixa de Nova Iorque à noite, e o quão poderoso é o efeito das coincidências.

Se estiverem à procura de uma aventura já sabem, sigam a mulher enigmática do café.

 

 

9/10

 

 

 

 

publicado por RJ às 01:58
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