Quinta-feira, 16 de Junho de 2011

Os épicos anos 60

 

"X-Men: First Class"

 

Charles Xavier: Listen to me very carefully, my friend. Killing Shaw will not bring you peace.

Erik Lensherr: Peace was never an option.

 

 

Tudo corria conforme planeado no mundo das adaptações cinematográficas dos super-heróis. Os dois primeiros "X-Men" (especialmente o "X2"), foram excelentes blockbusters que transpuseram muitíssimo bem o mundo dos X-Men para a actualidade, e o "Spider-Man 2" elevou a fasquia ao recriar no grande ecrã a empatia que sentíamos pelo Aranhiço quando líamos os comics, graças ao facto de Peter Parker enfrentar, quando está sem máscara, o mesmo tipo de problemas do quotidiano que qualquer ser humano normal enfrenta. Os terceiros filmes de ambas as sagas acabam por cair no comum erro de "excesso de porrada e demasiadas personagens", e encerram-se duas trilogias àquem das expectativas. É então que surge um indivíduo chamado Christopher Nolan que prova que podíamos fazer muito mais do que produzir simplesmente um sentimento de identificação do espectador com o protagonista da aventura saída dos quadradinhos: podíamos desafiar o espectador.

Depois disto a Marvel recupera terreno com o primeiro "Iron Man", uma adaptação descomprometida de puro entretenimento, à qual sucedeu uma sequela fraca cheia dos clichés do entretenimento da pipoca. Ficou claro que o homem-morcego era o adulto, e que os outros estavam presos no excesso de hormonas da adolescência.

 

Gostaria desde já de deixar claro que apesar de considerar que o "The Dark Knight" é a melhor adaptação de um comic de sempre, não acho que seja um filme de super-heróis. Não só porque as raízes do Batman não são as de um super-herói convencional, mas porque o "The Dark Knight" é sobretudo um thriller/policial (assim como o "Batman Begins"), e é dentro desse género que considero estar no topo.

 

Ora a lição de Nolan parece ter surtido efeito, e como que caído dos Céus, chega-nos este "X-Men: First Class" de Matthew Vaughn. Meio prequela, meio reboot, conta a história da revelação da existência dos mutantes, da formação dos X-Men e da amizade caída em desgraça de Charles Xavier e Erik Lensherr, futuros Professor X e Magneto.

Tal como Nolan, Vaughn não teve medo de correr riscos e de ser original, rejeitando a hipótese de fazer um reboot que colocasse os X-Men novamente no presente, e leva-os até à década de 60, em plena Guerra Fria e Crise dos Mísseis de Cuba. Face a um universo de espectadores que se habituou à modernização dos super-heróis, isto foi de facto um risco, e talvez explique porque é que apesar de um incrível sucesso a nível de crítica, o filme está com resultados de bilheteira inferiores aos dos seus antecessores.

 

O cenários dos sixties resulta na perfeição. Enquadrar as personagens em acontecimentos históricos reais torna a história muito mais cativante, e ajuda a que a ameaça da Terceira Guerra Mundial não pareça enfadonha. As ameaças de "fins do mundo" pertencem naturalmente aos anos 60, quando as nações receavam um iminente holocausto nuclear, que na realidade, esteve muito perto de acontecer. É uma história que tirando a parte de envolver pessoas com super poderes, podia perfeitamente pertencer a um filme do James Bond. E é dos James Bond de Sean Connery que Vaughn parece ter retirado grande parte da inspiração.

O vilão é tipicamente Bondiano, com o seu plano de concretizar as ameaças da Guerra Fria, o seu submarino e a sua femme fatale que apesar de estar quase sempre em roupa interior é uma mulher cheia de classe, (essa divindade chamada January Jones, pois). E Kevin Bacon dá o tom sinistro certo ao papel, e não deixa que o seu Sebastian Shaw se torne demasiado parecido a uma caricatura. Não posso deixar ainda de referir a interpretação dessa surpreendente jovem actriz de nome Jennifer Lawrence, que depois de um salto para a fama com aquele murro no estômago de nome "Winter's Bone", se torna numa belíssima Mystique.

É ainda impressionante como, tendo um vilão com ambições tão megalómanas, o filme não cai no exagero. Vaughn não é um Michael Bay, e as cenas de acção não abusam da pirotécnia e não conduzem à acumulação de montanhas de sucata. Era fácil cair na tentação de fazer batalhas com bolas de fogo gigantes e arrasar cidades inteiras, especialmente tendo a oportunidade de usar as mais diversas habilidades mutantes, e isso podia valer prémios nos concursos internacionais de CGI, mas não iria manter o espectador agarrado ao ecrã. Ver cidades explodir já não impressiona ninguém, o que impressiona é quando se consegue fazer com que a acção sirva como momento de desenvolvimento das personagens. A luta final (esse desfecho fundamental no universo dos super-heróis), que podia tão facilmente ter caído no exagero ridículo, é incrivelmente intimista, e nunca deixa de focar as personagens e a evolução dos seus percursos, e isso faz com que nos surpreendamos de facto com o que estamos a ver.

 

O Erik de Michael Fassbender é também ele muito Bondiano, e torna-se a verdadeira estrela do filme. Erik Lensherr podia ser facilmente confundido com uma versão implacável de um jovem Bond dos anos 60, e quando digo "implacável" quero mesmo dizer implacável. Vaughn não tem problema em mostrar violência quando esta é necessária para aumentar a intensidade e tornar a sede de vingança de Erik palpável. O que faz dele a personagem mais badass de sempre do género. Sim, ainda mais badass que o Wolverine de Hugh Jackman, (que já agora, faz um cameo memorável).

Fassbender faz ainda a melhor interpretação que o género alguma vez viu, merecedora de uma nomeação ao Óscar. Sentimos que estamos a ver um homem cujo coração foi irremediavelmente quebrado pela crueldade do ser humano, o que faz com que sintamos compaixão por ele, apesar de vermos como consegue ser brutal. É muito mais do que fazer o espectador simpatizar com o futuro vilão, é fazê-lo sentir-se desafiado por quem ele é, e o que representa.

Tudo isto coloca também Erik num balanço perfeito com o Charles Xavier de James McAvoy (que apesar de ser superado por Fassbender, também foi um casting perfeito), o reverso pacifista da medalha. O nascimento de Magneto está intimamente ligado à amizade com Charles, e é esta amizade a peça fundamental para que "X-Men: First Class" se torne lendário. A quebra desta amizade, provocada pela caída nas trevas do jovem Magneto, dá uma densidade dramática invulgar ao filme, que o eleva mesmo ao estatuto dos inesquecíveis. O arrepiante momento em que o abismo se abate finalmente entre os protagonistas , é verdadeiramente épico.

 

A obra-prima de super-heróis que o Cinema merecia.

 

 

9/10

 

 

 

publicado por RJ às 22:56
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2 comentários:
De YellowFlowers a 23 de Junho de 2011 às 01:33
Esse filme é simplesmente perfeito!! Qdo pensei q Piratas do Caribe iria me tirar o fôlego veio X-men first Class...
De Daniel a 23 de Junho de 2011 às 14:44
Concordo com os comentários relativamente a Nolan e o seu Batman. Estão noutra dimensão ou estratoesfera de super-heróis. No entanto gostaria só de sugerir The Watchmen de Zack Snyder. Não tenho dúvidas, que apesar do seu insucesso comercial se tornará um clássico.

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