Sexta-feira, 15 de Abril de 2011

Acompanhamento intelectual para as pipocas

 

"Source Code"

 

Colter Stevens: What would you do if you knew you only had one minute to live?
Christina Warren: I'd make those seconds count.
Colter Stevens: I'd kiss you again.
Christina Warren: Again?

 

 

O Capitão Colter Stevens, interpretado por Jake Gyllenhaal, é enviado para o corpo de um homem que morreu num atentado a um comboio em Chicago, nos oito minutos anteriores à morte deste homem, para descobrir o autor do atentado e conseguir impedir um segundo ataque. Pelo meio começa a considerar se não será possível interferir, e salvar as vidas das pessoas a bordo do comboio.

Dito assim, parece a base de mais uma habitual pipocada à Hollywood, a ser servida com doses mais do que razoáveis de pirotécnia, um interesse amoroso metido à pressão e o habitual final feliz, com uma lição de moral escolhida de entre as várias que o estúdio comprou aos pacotes e tem de injectar nos filmes. Cobre-se a falta de credibilidade com a desculpa do "projecto governamental secreto", e a premissa original de ficção-científica pouco interessa ao fim de meia-hora de filme, altura em que a pirotécnia já deve estar a ser preparada e não dá jeito que o espectador esteja a pensar muito.

Felizmente, Duncan Jones tinha outros planos, e "Source Code" foge aos padrões do típico blockbuster.

 

"Source Code" é bastante minimalista no que diz respeito a cenários e efeitos especiais. O herói viaja naquilo que é aparentemente uma cápsula metálica bastante claustrofóbica, e a única pirotécnia presente é na explosão do comboio, que apesar de acontecer muitas vezes não se torna irritante. Jake Gyllenhaal está seguro, e consegue construir um protagonista sólido e bastante humano, o que não era fácil devido aos recursos limitados que tem para o explorar. Michelle Monaghan não impressiona, mas convenhamos que não tinha muito espaço para explorar a sua personagem, e torna-se apenas competente e agradável de ver, como não puderia deixar de ser.

 

Jones já tinha surpreendido com "Moon", e era portanto um desperdício caso se rendesse à ditadura comercial dos grandes estúdios. Ora contrariando esta tendência, ofereceu ao panorama da ficção-científica made in USA uma lufada de ar fresco. Não se deixem enganar pelo trailer, "Source Code" é mesmo ficção-científica a sério.

Em vez de estupidificar um conceito potencialmente complexo, o que se fez foi aumentar-lhe a complexidade. Estava à espera que fosse usado o esquema das viagens do tempo, com os twists dos paradoxos temporais que já se tornaram quase lugares comuns, mas Duncan Jones recusou o caminho fácil. Em vez de se limitar a enviar Colter Stevens atrás no tempo, é usado o conceito das realidades paralelas, que obriga o espectador a prestar mesmo bastante atenção ao filme, e a dar bastante uso às suas células cinzentas.

Isto é muito refrescante, dado que a ficção-científica parece passar nos dias que correm por filtros estupidificantes, com Hollywood a limitar-se a usar as premissas, enchendo o resto de fogo-de-artifício. A ficção-científica tem pois participado nas histórias de filmes apenas como forma de dar as ideias iniciais, e a definição de ficção-científica tem-se tornado difusa. Para a maioria, ficção-científica é um qualquer cenário com carros voadores e arranha-céus futuristas, quando a verdade é que é muito mais do que isso.

 

E agora um grande alerta de SPOILER. Se ainda não viram o filme, não continuem a ler este post, pois irá revelar-vos o final da história. Ao referir aqui o final quero apenas dar criar a oportunidade de uma troca de ideias entre quem já viu o filme, partilhando as minhas teorias sobre ele.

 

Apesar de tudo até acabar relativamente bem, vale a pena destinar algum tempo a analisar o final do filme. Stevens regressa mais uma vez à realidade paralela através do source code, e salva todos os passageiros. Goodwin põe um fim ao seu estado vegatativo, permitindo que (aparentemente) ele descanse em paz. Mas Stevens, ao ter salvo os passageiros, criou uma nova realidade, um novo mundo, como ele próprio nos diz.

Este final é muito mais ambíguo do que parece à primeira vista, e tal ambiguidade foi intencionalmente deixada por Duncan Jones. É que Stevens continua no corpo de Sean Fentress, o que esconde uma verdade macabra: Fentress deixou de existir, Stevens substitui-o. Ou seja, o protagonista sacrificou a vida dele para desfrutar de uma vida feliz ao lado da sua namorada. Isto tira todo o heroísmo à acção final do protagonista, e torna-a muito ambígua do ponto de vista moral.

O filme desafia-nos assim a ir mais longe, e descobrir o que está além da superfície daquilo que parece ser um happy end.

 

Trata-se de ficção-científica a sério, para alargar horizontes, o que é mais necessário do que nunca ao panorama cinematográfico.

 

 

8/10

 

 

 

publicado por RJ às 23:02
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3 comentários:
De andr3 a 20 de Abril de 2011 às 00:04
Cool review.

Mas já ganhou o prémio de pior título em português do ano. ;)
De Palavreadora a 1 de Maio de 2011 às 18:24
Também gostei bastante do filme, é extremamente cativante e é daqueles que nos leva a sair da sala de olhos semicerrados a rever as cenas, a tentar perceber se o compreendemos ou não, na totalidade.
Mas porque tiraria a cena final heroísmo à personagem? Ele estava pronto a morrer após salvar as vidas daquelas pessoas, não contava de todo com uma nova vida num universo paralelo, que, parece-me, ele sempre viu como uma espécie de sonho, algo inalcançável. Isso dá-lhe todo o heroísmo e a nova vida, a recompensa que todos queríamos para ele. É como ele disse, uma vida de serviço chega.
Saíssem mais filmes destes dos fornos hollywoodescos!!
De Anselmo Damásio a 22 de Junho de 2011 às 13:02
Um dos melhores que vi este ano.

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