Sábado, 2 de Abril de 2011

Custo de vida

 

 

"The Brave"

 

McCarthy: The final measure of bravery is to stand up to death.

 

 

Caso não saibam, o grande Johnny Depp já fez uma incursão no mundo da realização, precisamente com este filme, "The Brave". Além de realizador, foi ainda argumentista e actor principal, contracenando com o lendário Marlon Brando, o seu mentor.

A história, baseada num livro, agarra no mito urbano dos snuff movies e introduz-nos a Raphael, um índio americano extremamente pobre, que para proporcionar uma vida melhor à família aceita participar num filme onde será morto. Literalmente.

Depois de fazer o acordo com o autor do filme bizarro, Raphael tem uma semana de vida, e a iminência da sua morte fá-lo aperceber-se do tempo que desperdiçou no Passado. Começa a aproximar-se mais da sua família, procurando dar-lhe naquela semana, alegrias que não conseguiu dar ao longo dos anos, e fazer com que os seus filhos, que ainda são pequenos, não se esqueçam dele.

 

O leitor poderá estranhar, porque é que o filme que Johnny Depp realizou, e que conta ainda por cima com Marlon Brando num dos seus últimos papéis, é tão desconhecido. Bom, isto deveu-se muito ao facto de o filme ter tido uma estreia acidentada em 1997 em Cannes, onde esteve na corrida à Palma de Ouro, e recebeu críticas terríveis dos críticos americanos, apesar de ter sido apreciado pelo público. Depois dessas más críticas, Depp recusou-se a estrear o filme em solo americano, tendo "The Brave" estreado apenas na Europa.

Ainda assim, será que foi mesmo má ideia Johnny Depp ter-se aventurado na realização numa altura em que ainda estava a caminhar para ser uma verdadeira estrela? Não, não foi má ideia, mas "The Brave" podia na verdade ser melhor do que é.

 

A base da história é terrivelmente interessante: um homem desesperado que para dar uma vida melhor à família aceita colocar um preço na própria morte. É assustador, mas é a base daquilo que podia ser uma reflexão extraordinária sobre aquilo a que o desespero obriga aqueles que o mundo esqueceu a fazer, e as formas atrozes como o mundo se aproveita desses homens. Porém, fica-se pelo bom.

Nota-se que é feito por um realizador estreante porque o filme acaba por ser algo inconstante. Em primeiro lugar, é um filme bastante parado, com poucos diálogos e poucas coisas a acontecer, e depois, parece que não sabe muito bem o tom que há de escolher.

O início é curioso. A primeira fala ocorre uns dez minutos depois do filme começar, mas ainda assim o início do filme parece demasiado abrupto porque a revelação de que Raphael vai aceitar que o matem e tornem a sua morte em entretenimento, é um brutal murro no estômago do espectador. Por um lado, isso puderia ter resultado bem, pois provoca um efeito de choque paralelo ao da própria personagem (que se limita a candidatar-se a um suposto emprego, desconhecendo a sua natureza), mas a forma como se atira o espectador para um mundo bizarro de autores de filmes perversos deveria ter sido feita de outra forma. O próprio Raphael adapta-se com demasiada calma e rapidez ao que lhe está a ser proposto, sem dizer seja o que fôr. Sim, ele podia ser um homem em profundo desespero, mas certamente que não aceitaria que o matassem sem resistir um pouco mais à ideia e questionar as opções de entretenimento naquele mundo obscuro.  Devia ter sido necessário mais tempo para o persuadir, mesmo concordando que Brando é bastante sinistro no papel do autor da proposta.

 

Depp interpreta Raphael como um homem que por estar consumido pelo desejo de tirar a família da situação miserável em que vive, tem um postura muito introspectiva, falando pouco, e essa é de facto a abordagem correcta ao papel. Ainda assim, em certas cenas, como na mencionada anteriormente, falta mais diálogo.

Quanto ao tom do filme, a maior parte do tempo é um drama, que nos traz constantemente um sentimento de miséria pelos ambientes degradados em que se passa, e que descreve uma emocional história do sacrifício de um pai, mas tem certos momentos que parecem um pouco deslocados, como a história do corvo que o braço-direito de McCarthy conta a Raphael, ou a cena da orelha, (vejam simplesmente).

 

Apesar de tudo o que possa ter corrido menos bem, é claro que Depp se apaixonou pela história e que luta para que a reflexão de base sobreviva e marque o espectador. As cenas de Raphael com os filhos e o final são tocantes, e este último nomeadamente, está bastante bem filmado e montado. Só é pena que no todo, o filme não tenha mantido maior consistência.

Levamos connosco uma questão fundamental: ao que é um Homem reduzido, quando nada mais quer a não ser que a sua família tenha uma vida melhor, e por não o conseguir é conduzido ao limiar do desespero?

E espero que agora que Depp se tornou num Grande actor, volte a realizar um filme.

 

 

7/10

 

 

 

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publicado por RJ às 21:57
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