Sábado, 17 de Julho de 2010

"Hot Fuzz"

 

 

Danny Butterman: Where's the trolley boy?
Nicholas Angel: In the freezer.
Danny Butterman: Did you say "cool off?"
Nicholas Angel: No I didn't say anything...
Danny Butterman: Shame.
Nicholas Angel: Well, there was the bit that you missed where I distracted him with the cuddly monkey then I said "play time's over" and I hit him in the head with the peace lily.
Danny Butterman: You're off the fuckin' chain!

 

 

"Hot Fuzz" é incrível. Mas daqueles filmes incríveis a um nível verdadeiramente épico.

Agora o que faz de "Hot Fuzz" das coisas mais geniais a sair da 7ªarte nos anos 2000? A resposta é: tudo. Tudo o que se passa naquela hora e meia é genial, portanto o melhor seria mesmo que começassem a ver o filme assim que eu acabasse esta frase, e que só depois de o verem continuassem a leitura.

 

O coração do filme é o seu humor. É um humor próprio e genial, (preparem-se, a palavra "genial" deverá ser usada por mim várias vezes ao falar neste filme). Não estamos a falar de um humor parvo, não estamos a falar do humor da típica comédia brainless das tardes televisivas de fim-de-semana. Estamos a falar de uma sátira feitas com uma inteligência soberba, uma inteligência que faz com que, mesmo os momentos aparentemente parvos sejam inteligentes.

Mas porquê? Afinal, de onde vem esta genialidade toda?

"Hot Fuzz" é um filme que tem várias camadas de genialidade e analisá-las é tão empolgante quanto difícil. Dificíl porque ficará sempre a sensação de que escapou alguma coisa.

A sátira genial começa no fio condutor da história propriamente dito: o polícia londrino Nicholas Angel era tão extraordinário que, para não deixar o resto da esquadra mal vista, foi promovido a sargento e transferido para a vila de Sandford, uma terra perdida no meio do campo inglês, que é considerada o sítio mais seguro do país. Claro que está prestes a descobrir que a vida rotineira e sem surpresas da vila, onde qualquer morte é considerada um simples acidente, pode esconder algo de sinistro...

 

Isto é a chama de todo o brilhantismo que se irá seguir.

Não é uma comédia vulgar, e portanto não surpreende que tenha tido alguma dificuldade em estrear no nosso país. Perceber o quão "Hot Fuzz" é bom não é fácil. Não requer um curso de Cinema, mas requer uma mente aberta a um tipo de comédia diferente daquilo que Hollywood costuma enviar para as salas. Sim, porque este é um produto com um grande nível de "comédia british", o que se compreende, antes de mais por ser uma criação inglesa. Até hoje, foi dos filmes que mais me fez rir, mas faz rir fazendo pensar ao mesmo tempo. O humor está recheado de pequenas subtilizas, e deixa-se que o espectador absorva esses toques de humor tão bem construídos. As sátiras dentro da sátira. 

Para explicar melhor isto, existe outra coisa que é necessário perceber em relação a "Hot Fuzz": satiriza o Cinema de acção.

 

Edgar Wright e Simon Pegg agarraram em todos os clichés dos filmes de acção e colocaram-nos num filme. Uns foram colocados de forma mais subtil que outros, mas estão todos lá. E o filme brinca constantemente com isto, basta recordar a cena em que Angel tem de ouvir um rol interminável de perguntas do seu novo parceiro Danny (Nick Frost), que é fã de filmes de acção desde "Die Hard" a "Bad Boys II", sobre se já fez algumas das coisas características das típicas cenas de acção. Por exemplo, disparar uma, ou duas, armas enquanto se salta. No fim, nas apoteóticas cenas de acção finais, os personagens fazem de facto, todas estas coisas.

Porém, é preciso perceber que, a inteligência desta brincadeira sobressai também por o filme não querer fazer o espectador pensar que todos estes filmes de acção com todos estes clichés são maus. Pelo contrário, o filme homenageia o Cinema de acção e no final, deixa sim a sensação de que este é de facto uma parte importante do Cinema. Aqui não há humor grosseiro, só humor inteligente e muito amor aos filmes.

 

Deve ainda ser mencionado que é um filme com uma dose considerável de violência. Sim, acontecem coisas neste filme com um nível bastante respeitável de sangue, mas apesar de serem macabras, situam-se no espectro cómico do macabro. O exagero da violência faz parte da sátira. É um pouco como a violência dos Looney Tunes.

Mas esta violência é tão característica deste "Hot Fuzz" como do anterior filme da parceria Edgar Wright/Simon Pegg/Nick Frost, o igualmente genial, "Shaun of the Dead". Wright assume o cargo de realizador, escrevendo o argumento em parceria com Pegg, que por sua vez protagoniza os filmes ao lado de Frost. Aliás, "Fuzz" é na verdade o segundo capítulo daquilo a que Wright e Pegg chamam de "Blood and Ice Cream Trilogy", sendo portanto "Shaun" o primeiro capítulo. O terceiro está para sair e terá o título de "World's End".

O nome desta trilogia deve-se ao já mencionado gore e ao facto de as personagens comerem Cornettos em todos os filmes.

 

Vale a pena voltar a repetir a palavra "genial" para descrever as interpretações. A dupla Simon Pegg e Nick Frost funciona com perfeição absoluta, como se ambos tivessem sido feitos para interpretarem lado a lado, (e provavelmente foram mesmo). A ingenuidade, deleite e fascínio que Danny tem com o mundo empolgante dos filmes de acção é o yang perfeito para o yin do super-polícia Nicholas Angel, com a sua seriedade e obsessão em cumprir a lei. Os diálogos entre os dois são absolutamente maravilhosos.

A compor o elenco temos ainda um excelente Jim Broadbent e um Timothy Dalton num tom sinistro fabuloso, um exemplo de casting perfeito. Já para não falar numa galeria imensa de outros actores a fazerem pequenos cameos, como Bill Nighy e, imagine-se, Cate Blanchett e Peter Jackson.

 

No meio de toda a sátira, o fio condutor da história progride para nos trazer surpresas no fim, (a agora, aconselha-se que quem ainda não viu o filme, não continue a ler este parágrafo). A revelação de que os crimes estão de facto a ser cometidos pelo grupo de cidadãos respeitáveis da vila é deliciosa, especialmente quando é revelado que as mortes não tiveram por trás nenhum plano audacioso como Angel imaginara, mas o simples desejo de eliminar pessoas que destabilizavam a perfeição da vila, por fazerem coisas consideradas irritantes ou incómodas. A sinistra organização secreta dos respeitáveis da vila que luta pelo "greater good", acrescenta à sátira geral, uma sátira à "utopia social" de forma verdadeiramente brilhante.

 

"Hot Fuzz" é um marco. É uma comédia para estimar e apreciar ao longo de muito tempo, indo saboreando todas as pequenas coisas fenomenais que tem.  Genial, pois.

 

10/10

 

 

 

publicado por RJ às 04:32
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