Quinta-feira, 31 de Dezembro de 2009

"Sherlock Holmes"

 

Guy Ritchie trás-nos uma reinvenção da clássica personagem de Sir Arthur Conan Doyle, com visões diferentes sobre as personagens principais, que tentam aproximar "Sherlock Holmes" mais das suas verdadeiras origens, os romances e contos originais, afastando noções que tenhamos da personagem trazidas posteriormente, com peças de teatro e primeiras adaptações ao Cinema.

 

O próprio ponto na história de Holmes de que o filme decide partir é curioso. Apesar de ser a reinvenção da personagem, não é uma típica história de origens, relatando o começo da relação com Watson ou a sua juventude. Aqui, Holmes e Watson partilham já a mesma casa, e várias aventuras, há bastante tempo, Watson pensa já em afastar-se do louco, ainda que empolgante, mundo do seu amigo e casar-se, e Holmes já conheceu uma rival intelectual no sexo oposto com Irene Adler, (Rachel McAdams).

Com todas estas coisas postas de parte, entramos no mundo deste Sherlock Holmes, no meio de aventuras. A personagem já se estabeleceu, assim como a sua relação com o mundo e com as pessoas que gravitam em seu torno. É como entrar na vida de alguém a meio, e ao mesmo tempo, vamos descobrindo as origens da pessoa sem ser preciso que nos sejam expressamente ditas, e tudo parece familiar.

O detective encontra-se porém perante um desafio que ameaça não só pôr à prova o seu intelecto, mas que o ataca intimamente e desafia a sua racionalidade. Este desafio é Lord Blackwood, (Mark Strong, numa excelente interpretação), uma figura sombria pertencente a uma socidade secreta, aparentando possuir poderes além do alcance do comum dos mortais, e que planeia pôr em curso eventos que alterarão para sempre o destino de Inglaterra e do mundo.

 

Aqui temos um elemento que resulta curiosamente bem no filme: incluir toques do sobrenatural. Á primeira vista, dir-se-ia que estas ideias, escapando à racionalidade, não são de forma alguma compatíveis com uma personagem com uma forma profundamente lógica e racional de olhar o mundo, mas o facto de Holmes ser confrontado com alguém que o avisa para o facto de ser necessário ele "ampliar a sua visão" das coisas para compreender os eventos que irão tomar lugar, coloca um fantástico desafio à personagem. Se conhecemos Holmes numa altura em que a sua forma de pensar já está estruturada há muito tempo, é então necessário um elemento diferente para explorar a personagem, o que é personificado neste contraste da forma lógica do pensamento do detective com a ameaça de que poderão existir coisas capazes de frustrar essa lógica, que operam num plano diferente àquele em que Holmes tem domínio.

 

Sherlock Holmes sempre foi alguém capaz de equilibrar a habilidade física com a mental. Já nos contos era descrito como alguém bastante ágil, que era também um pugilista amador e hábil na esgrima. Portanto, não é insulto nenhum à personagem retratá-la como alguém capaz de participar em momentos de acção com uma destreza, e isso leva até a personagem um pouco mais ao encontro das suas origens, (mesmo que o filme possa ter momentos de acção a atirar um pouco para o "cómico-juvenil" como a luta com o gigante francês).

Porém neste ponto, o filme fornece uma visão refrescante da personagem, mantendo a excentricidade original tão caracterísitica e eterna, (fazer experiências por vezes bizarras ou inconvenientes, conseguir passar semanas deitado no sofá quando não lhe é colocado nenhum desafio que estimule o seu intelecto e fazer deduções mais rápidas e superiores às daqueles que o rodeiam, deixando-os várias vezes a ignorar os seus planos), e livrando-o de clichés que acompanham tantas vezes a personagem ao longo dos seus diversos retratos no teatro e no Cinema, aproximando-o um pouco mais das verdadeiras origens.

Nesta nova visão do detective, a interpretação de Robert Downey Jr. torna-se fundamental na personificação de um novo Holmes, que é ao mesmo tempo novo e fiel aos livros. Downey Jr. faz uma interpretação fantástica da personagem, incorporando características clássicas e novos elementos, sendo fiel a quem a personagem era, e tornando-o no seu próprio Holmes, que apesar de diferente, é tão digno de recordar como a interpretação de Jeremy Brett na fabulosa série televisiva. Brett perdurará como uma encarnação absolutamente perfeita da personagem, que é diferente desta, mas em relação à qual esta não se deve sentir de forma alguma envergonhada. Ambas merecem ser recordadas pela sua enorme qualidade, mesmo que devam ser colocadas em patamares diferentes.

 

O novo Dr. Watson é também uma encarnação fenomenal de Jude Law, que livra totalmente a personagem dos seus clichés habituais de ser um senhor de barriguinha ligeiramente desastrado, e ainda que remetendo para a origem da personagem enquanto um veterano de guerra prestes a casar-se, torna-o mais activo e mais capaz de acompanhar Holmes tanto física como intelectualmente. Mesmo que seja muitas vezes superado pelas conclusões brilhantes do seu amigo, não é de forma alguma uma personagem cujas capacidades devam ser menosprezadas.

A parceria entre Holmes e Watson possuí aqui uma química perfeita, dando credibilidade à sua longa parceria e transmitindo ao espectador uma sensação de familiariedade com a dupla, como se ambos fossem dois velhos amigos que encontramos ao fim de alguns anos, que apesar de terem mudado um pouco, permanecem inconfundíveis.

 

Se a acção trás por vezes ao filme um tom de blockbuster moderno, "Sherlock Holmes" consegue ainda assim estar muito acima do rótulo de "filme-pipoca". Os efeitos visuais ajudam a recriar o ambiente vitoriano em que se movimentam as personagens, nunca se sobrepondo ao desenvolvimento destas, e o resultado é uma aventura fantástica com o espírito original de Sherlock Holmes que possui um sabor refrescante e ao mesmo tempo um trave a aventura clássica.

 

Juntando novos elementos à imagem clássica que temos do mais famoso detective do mundo, apresentando uma visão onde o desenvolvimento de personagens não é comprometido pela adrenalina, e mantendo-se fiel às verdadeiras origens deste universo, construindo a sua originalidade com o abandonar de clichés e o aproximar do material de origem, é um filme com tom de blockbuster, mas de um blockbuster a ser levado mais a sério.

Para descobrir ou redescobrir a lenda que é Sherlock Holmes, personagem imortal e intemporal. Um filme a recordar, sem dúvida. 

 

8.5/10

___

 

Lord Blackwood: Mr. Holmes, you must wide your gaze. You underestimate the gravity of coming events.

 

Sherlock Holmes: You've never complained about my methods before.
Dr. John Watson: I've never complained! When have I ever complained about you practicing the violin at three in the morning, or your mess? Your general lack of hygiene or the fact that you steal my clothes?

 

Lord Blackwood: Holmes, you and I are bound together on a journey that will twist the very fabric of Nature.

 

[Holmes is handcuffed to the bed naked with only a pillow covering him. A maid walks in and screams]
Sherlock Holmes: Madame, I need you to remain calm and trust me, I'm a professional. Beneath this pillow lies the key to my release.
[the maid screams again and runs away]

 

 

 

publicado por RJ às 13:36
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