Sábado, 20 de Dezembro de 2008

Falta de Magia?

Tal como hoje se contam a filhos e netos, como em tempos se escrevia numa complicada e trabalhosa máquina de escrever, e não num computador, ou até mesmo de alturas em que nem máquinas de escrever haviam e tudo era feito à mão, começam agora a surgir outras destas histórias de "contar à lareira": a história da antiga sala de Cinema.

 

Conheci em tempos, uma sala de Cinema, que agora adjectivarão de antiga. E chamar-lhe-ão antiga, porque remonta a um tempo em que as alegrias desta belíssima arte não eram vividas nos últimos pisos dos centros comerciais. Esta sala era algo que restava de tempos em que o Cinema era, imagine-se, considerado um evento social.

Mas afinal, o que é isto de evento social? Ora, tratava-se de quando as pessoas escolhiam cuidadosamente a sua roupa, e planeavam cuidadosamente a sua noite para irem ao Cinema. Nos dias de hoje, chamar ao Cinema um evento social parece despropositado. A ópera talvez seja um evento social, um concerto de música clássica, o teatro possivelmente, mas o Cinema? 

 

A verdade, é que para qualquer amante do Cinema, o Cinema é sagrado. Daí qualquer amante de Cinema preferir ir até uma sala, a ver um filme numa cópia pirata de má qualidade, ou mesmo esperar para o alugar em DVD. É esta magia que a 7ªarte desperta em nós que é importante, mas poderá alguma da magia do Cinema ter-se perdido?

 

 

Existia uma sensação mágica em ir até àquela velha e enorme sala de Cinema, maior do que qualquer sala que encontro hoje em centros comerciais. 

O Cinema tinha a sua própria casa, não um apartamento alugado por cima de supermercados e McDonalds. Chamem-me louco, mas era havia uma mística especial nas antigas salas de Cinema. Hoje, com os centros comerciais, a magia de nos dirigirmos exclusivamente ao Cinema perdeu-se. Já não existe aquele encanto à volta daquele lugar, a bilheteira parece banal mesmo ali o lado de dezenas de lojas. 

Quanto a ter sido em tempos considerado um evento social, isso também fazia parte desta mística e também se perdeu. A maioria das pessoas considerava nesses tempos áureos, a sala de Cinema como algo verdadeiramente fascinante, e um grande evento na sua agenda semanal. Actualmente, no centro comercial, perde-se esse fascínio, já nem os jovens têm a sensação de que aquela sala escura encerra algo pura e simplesmente encantador. É banal, e sai-se do filme em direcção ao estabelcimento de fast-food ou de roupa de marca mais próximo, sem saborear o que se passou quando estivemos ali sentados perante simples imagens em movimento. 

 

O Cinema será sempre especial, pelo menos continuará a ser especial para mim. Mas tal como uma outra história de "contar à lareira", também popular entre cinéfilos, que é a dos clubes de vídeo, a das antigas salas de Cinema encerra uma mensagem. O Cinema é especial dentro de nós, e é aí que nos encontramos verdadeiramente com o que ele nos tem para oferecer. Só ele nos faz rir e chorar, nos torna pessoas melhores quando abandonamos a sala, porém, estes contos de tempos em que o Cinema era diferente, revelam que havia tempos em que toda outra magia circulava à volta de ir ver um filme.

 

A história dos clubes de vídeo é outra. Outrora os clubes de vídeo eram lugares de debate cinematográfico, tinham secções de velhos clássicos e de filmes de série B, hoje também esses espaços se renderam às leis do que é comercial. Sim, porque hoje em dia conseguir encontrar um filme da década de 80 nas suas prateleiras pode ser difícil, quanto mais um da de 70 ou 60?

Divertido fiquei eu um dia, quando o rapaz do clube de vídeo, após eu tirar da prateleira, o "8MM" com o Nicolas Cage, um filme de 1999, me diz que eu gostava de "filmes velhos". Caramba, o que me diria ele se eu tivesse nas mãos um filmes a preto e branco?

 

Os clubes de vídeo são um exemplo a acrescentar ao das salas de Cinema. Porque nos antigos clubes de vídeo também havia magia, e muitos e bons filmes para serem descobertos. Visitava-se o clube de vídeo para descobrir, hoje visita-se o clube de vídeo para requisitar êxitos que sairam na semana passada.

 

Regressando à história da antiga sala de Cinema, confesso que espero nunca me esquecer daquela magia, daquela sensação especial.

O Cinema será sempre o Cinema. Será sempre mágico e nunca deixarei de o amar. Nunca deixarei, mesmo numa sala por cima de supermercados e McDonalds, de sentir o que sinto quando me aproximo desta arte e sou tocado por ela. Mas confesso que terei sempre saudades da altura em que se olhava para a sala de Cinema com outros olhos e se reconhecia nela sinais de outra magia. As mudanças são normais, e sabemos lá onde estará o Cinema daqui a uns quantos anos, mas deixar de contar a história da antiga sala de Cinema, é perder um pouco, daquilo que o Cinema significa.

 

 

 

publicado por RJ às 21:35
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1 comentário:
De Palavreadora a 22 de Dezembro de 2008 às 13:19
Ena! Grande texto, grande significado. Não nasci numa época que me permitisse considerar o Cinema um evento social e nunca pude assistir a um filme na própria casa do Cinema. Só conheci os shoppings e os cinemas enfiados entre lojas de fast food, quiosques e Zaras. Mas percebo o que quer dizer com este desabafo e tenho pena de nunca ter experimentado o Cinema dessa forma. Cinema, para mim, também é mais do que entrar numa sala escura, olhar para um ecrã, comer pipocas e sair para visitar lojas.
Ainda bem que há alguém que sabe traduzir por palavras um sentimento tão bom como este de visitar um cinema!!

Feliz Natal! :)

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