Domingo, 26 de Fevereiro de 2012
It's that time of the year again...

 

A noite de Oscars! Amem-na ou odeiem-na, ninguém resiste a falar sobre ela. Sim, são sobrevalorizados, mas nós que adoramos Cinema não conseguimos resistir a gostar pelo menos um pouco, desta noite.

Todas as paixões precisam do seu momento de celebração e este é o nosso. Mesmo que os filmes que achamos que deviam ganhar nem estejam nomeados (se o universo fosse justo, "Drive" devia ganhar pelo menos uns cinco Oscars), e que a escolha dos vencedores esteja recheada de jogos de bastidores, é aquele momento do ano em que a nossa arte de eleição é transportada para as luzes da ribalta, e gostamos disso.

Adoramos tanto dizer mal dos Oscars como adoramos ficar contentes no dia a seguir, quando quem queríamos que ganhasse até ganhou. E por muitos filmes que tenham ficado injustiçados, existem sempre aquelas vitórias que quanto a nós, não podiam ter sido mais merecidas, (a minha é a do "The Lord of the Rings: The Return of the King"). O fundamental parece-me ser que, não há problema em celebrar um pouco os Oscars, desde que não os levemos demasiado a sério.

Portanto, aqui vai mais uma lista de previsões e considerações, a acrescentar aos milhões que circulam hoje nessa Internet:

 

 

Melhor Actor Secundário

Christopher Plummer - "Beginners"

 

Gostei bastante do "Beginners", é um filme fofo e invulgarmente honesto quanto ao tópico das relações humanas. A vitória de Christopher Plummer é uma boa maneira de premiar não só um grande actor que nunca ganhou um Oscar, como mais um daqueles pequenos grandes filmes que escapam ao "grande público".

 

Melhor Actriz Secundária

Octavia Spencer - "The Help"

Devia ganhar: Bérénice Bejo - "The Artist"

 

Não vi o popular "The Help", mas com os anos '60 a estarem bastante na moda e a questão do racismo no centro da história, parece-me que Octavia Spencer tem boas hipóteses. E é também para ela que apontam a maioria das previsões.

Mas ei, adorei o "The Artist" e gostava bastante de ver a até agora desconhecida Bérénice Bejo, levar a estatueta, por ter captado tão bem o glamour das estrelas de outros tempos.

 

Melhor Actor Principal

Jean Dujardin - "The Artist"

Devia ganhar: Gary Oldman - "Tinker Tailor Soldier Spy"

 

Aposto em Dujardin, mas confesso que estou dividido entre ele e Gary Oldman na categoria do "devia ganhar". Dujardin faz uma interpretação fabulosa que parece ter sido trazida até nós por meio de alguma máquina do tempo, mas grande parte de mim está a torcer por Oldman.

"Tinker Tailor Soldier Spy" é uma obra-prima e um filme de actores com ritmo adulto, o que começa a ser cada vez mais raro. A ausência do filme nas nomeações a Melhor Filme e Melhor Realizador é, a par da ausência de "Drive" (que sempre tem o desconto de ser filme de culto), a grande injustiça deste ano para mim. Dar o Oscar a Oldman daria um reconhecimento ao filme que é mais do que merecido, e coroaria um actor lendário por um dos melhores papéis da sua carreira. Isto é bem mais feliz do que darem-lhe o Oscar por um papel menor daqui a uns anos, ou não lhe darem um Oscar de todo e tentarem compensar esse erro com um "prémio de carreira" ou algo do género.

 

Melhor Actriz Principal

Viola Davis - "The Help"

Devia ganhar: Michelle Williams - "My Week with Marilyn"

 

Lá está, não vi "The Help" mas tudo indica que será uma luta entre Meryl Streep e Viola Davis. Davis parece-me ter hipóteses pelos mesmos motivos que Octavia Spencer, e por já ter sido nomeada a um Oscar anteriormente (curiosamente, por "Doubt" em que contracenou com Streep). Meryl Streep tem a favor dela o facto de ser a Meryl Streep, mas tem como contras, ninguém gostar da Margaret Thatcher e ninguém ter gostado muito do seu filme.

Pessoalmente, gostava que ganhasse Michelle Williams. Já foi nomeada, e gostei muito da sua interpretação da icónica Marilyn Monroe. Interpretar quem é talvez a mulher mais icónica do Cinema da forma extraordinária como Williams o fez, é bem merecedor de um Oscar.

 

Melhor Realizador

Michael Hazanavicius - "The Artist"

Devia ganhar: Martin Scorsese - "Hugo"

 

Apaixonei-me por ambos os filmes, e formam um parelelo muito interessante. Se "The Artist" redescobre uma técnica quase esquecida, "Hugo" é uma carta de amor ao passado a mostrar o caminho certo para o futuro.

Dividir os Oscars de Melhor Filme e Melhor Realizador entre os dois filmes parece-me ser a forma ideal de fazer justiça a duas obras igualmente belas. Para mim, devia caber a Martin Scorsese a honra de Melhor Realizador, porque continua a precisar de mais Oscars, fez o primeiro uso do 3D que justificou o uso do 3D, e criou com este, algumas das imagens mais belas que me lembro de ver no grande ecrã.

 

Melhor Filme

"The Artist"

 

É o que todo o mundo espera, e parece-me mais do que merecido. "The Artist" é um queridinho da crítica que merece ser um queridinho da crítica. É mesmo, mas mesmo um momento mágico de Cinema, e ainda por cima, um que há uns anos atrás, ninguém esperaria ver chegar ao grande ecrã.

Numa altura de tanta inovação, deu-nos a oportunidade de relembrar um Cinema que nunca deveremos esquecer.

 

 

 



publicado por RJ às 15:14
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Domingo, 19 de Fevereiro de 2012
Afinal o "Hugo" não é um filme para crianças

 

 

"Hugo", como toda a gente já sabe, é o primeiro filme de família de Martin Scorsese. Mas dizer que é um filme de família não é o mesmo que dizer que é um filme que serve para "despejar" os filhos.

Se outrora qualquer criança perdia o pio com o que via no ecrã (coisa que o próprio filme de Scorsese mostra), hoje, para quem foi educado à frente da televisão, o Filme já não reserva o mesmo mistério.

Fui obrigado a assistir a "Hugo", um momento de Cinema verdadeiramente mágico, com um bando de crianças intoleravelmente irritantes na faixa dos 7/8 anos na fila de trás, que ao que tudo indicava, lá está, tinham sido despejadas na sala para darem sossego aos pais. E por mais que os adultos que as rodeavam as mandassem calar, de nada servia.

"Hugo" é um filme que pode ser visto e até adorado por crianças, mas têm de ser crianças que recebam o mínimo de educação em casa e que vejam o mínimo de encanto no Cinema, e o que o Cinema é na imaginação de uma criança está sem dúvida a mudar.

 

O filme tem crianças como protagonistas, mas tem um ritmo de adultos e uma história que não apela a qualquer criança, mas sim a um tipo muito específico de crianças, crianças que não vêem o Passado como um sítio entediante e que não reagem com repulsa aos "filmes velhos". Porque esta é uma história de nostalgia, sobre o início do Cinema, integrada na viagem de um rapaz orfão que quer descobrir o seu lugar no mundo e que pelo caminho tem de ajudar um homem a redescobrir o seu. É mais uma viagem emocional do que uma montanha-russa cheia de luzes fluorescentes e explosões.

 

A todas as famílias que estejam por aí: estejam conscientes de que não é a típica história familiar que passa na televisão aos domingos à tarde. Não deixem crianças que não têm respeito pelos mais velhos na sala de Cinema, como se esta fosse uma jaula que as pode conter durante umas horas de modo a poderem ver as montras. Enquanto têm o vosso sossego, lá se vai o sossego de quem pagou, e bem, para apreciar um filme.

Mostrem esta pérola a crianças, mas a crianças que ainda sabem apreciar o encanto dos filmes que encantam, e que respeitam o encanto dos outros.

 

Em total oposição ao que me aconteceu ao ver este "Hugo", quando fui ver o "The Artist", tive uma bela surpresa. O público consistia maioritariamente em adultos, o que não surpreende, e a visualização decorreu em silêncio absoluto (tirando os risos nas cenas do cão, claro), um silêncio de admiração e respeito pelo filme. E eu estava tão surpreendido por aquele silêncio, tão surpreendido por não ter ouvido ninguém gritar "O quê? Isto é mudo?!" ao fim de dez minutos, que só quando chegou o intervalo é que reparei que estava um casal com dois filhos, uma rapariga que devia ter à volta de treze anos e um rapaz de uns oito, duas ou três filas à frente de mim. A criança estava a assistir àquele filme mudo a preto e branco num estado de admiração tal, que eu nem tinha dado pela sua presença!

À saída da sala, quando a mãe perguntou ao filho  se ele tinha gostado, ele respondeu-lhe que tinha adorado. Basta dizer que saí do Cinema tão deliciado com aquela reacção como com o próprio filme.

 

É destas excepções que dependem as gerações.

 

 

 



publicado por RJ às 19:42
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Sábado, 4 de Fevereiro de 2012
E se não há palavras, há música

 

Quando não há palavras, usam-se as imagens e a música. Não receie quem teme pelo facto de faltarem palavras para descrever "The Artist", porque a música do filme não o podia descrever melhor.

 

 

 



publicado por RJ às 20:38
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Não há palavras que o descrevam

 

Corram imediatamente para o cinema! "The Artist" é um dos grandes eventos cinematográficos do nosso tempo, possivelmente O maior evento cinematográfico da década!

Corram, porque irão lamentar se não o virem no grande ecrã, quando daqui a uns anos os vossos netos vos perguntarem "como foi, quando o "The Artist" estreou?".

 

Trata-se de autêntica beleza cinematográfica, daquela beleza cinematográfica que só um regresso ao passado nos podia proporcionar.

Por um fim-de-semana, deixem de lado os filmes-pipoca e voltem a tratar a sala de cinema como um santuário, por favor. É essa beleza que este filme traz de volta, é essa admiração que este filme merece.

 

 

 



publicado por RJ às 20:21
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Drivers

 

 

"Drive", apesar de ter uma identidade própria que o destaca entre tudo o que já vi na minha vida, tem influências claras. Lembra uma fusão entre "Pulp Fiction" e "Taxi Driver". As vibrações pulp e cool, aliadas a um silêncio que vale por mil palavras (muito diferentes dos fala-baratos de Quentin Tarantino), de heróis solitários que se movimentam nas sombras de grandes cidades (no filme de Martin Scorsese é Nova Iorque, no de Nicolas Winding Refn é Los Angeles), com o seu próprio código de valores. São cavaleiros honrados de contos medievais cujos castelos passaram a ser os arranha-céus banhados pelas luzes de neon, e que substituíram o cavalo pelo carro, dominando a condução com a mesma destreza com que dominavam a espada.

 

No mundo urbano contrário aos seus valores, lutam pela sobrevivência sem nunca abandonarem o caminho da sua justiça muito própria, que os obriga a socorrer as donzelas colocadas em perigo, não por grandes senhores feudais ou dragões, mas pelos monstros que espreitam nos becos das nossas ruas. Socorrem quer sejam meninas a quem foi roubada uma existência inocente como a Jodie Foster salva por Robert De Niro, ou a mãe empenhada em afastar o filho do crime, interpretada por Carey Mulligan e salva por Ryan Gosling.

 

E temos ainda um actor a ligar ambos os filmes, o injustamente ignorado nos Óscares, Albert Brooks.

 

É obra, criar um "Pulp Fiction"-"Taxi Driver" para a segunda década dos anos 2000, e ainda assim, cá está ele.

 

 

 



publicado por RJ às 19:40
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Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011
O Natal chegou mais cedo

 

Demorei pelo menos umas duas horas a acreditar que era mesmo verdade, mas é verdade. Não havia prenda de Natal melhor do que o trailer do "The Hobbit: An Unexpected Journey", e aqui está ele, tão glorioso que conseguiu superar as já monstruosas expectativas.

É surpreendentemente extenso para um primeiro trailer, mantendo porém na obscuridade os desenvolvimentos da história que Peter Jackson acrescentou.

 

Ver isto deu-me uma sensação maravilhosa. Bastaram alguns segundos para que me sentisse transportado de volta e para que parecesse que nunca abandonámos mesmo a Terra-Média. São dois minutos e meio que não poderiam ter sido mais brilhantes. Tudo parece uma extensão do "The Lord of the Rings" tão natural como as raízes de uma árvore, e afinal, estas são mesmo as raízes do épico que amamos.

Basta este breve olhar para ter a certeza de que será a Terra-Média como a guardámos no coração, com uns pózinhos que já dão uma ideia daquilo que irá compôr a identidade própria do "The Hobbit". A expressividade do Bilbo de Martin Freeman, uma alma ainda menos habituada à ideia de grandes aventuras do que Frodo, a companhia muito própria do grupo de onze anões, com as suas canções e momentos mais cómicos, um Gandalf como figura paternal que ao mesmo tempo começa a descobrir os indícios da tempestade que se aproxima, o que o leva a embarcar na sua própria demanda.

E depois todo o resto do brilho. O brilho das paisagens élficas com a semi-divina Cate Blanchett no centro, o brilho de espadas capazes de forjar as suas próprias lendas, o brilho do Anel no escuro... O extraordinário brilho do universo da Terra-Média, que tem tanto de natalício.

 

Agora sim, já vejo o regresso às terras mágicas de J. R. R. Tolkien num horizonte cada vez mais próximo, apesar de ainda estar a um ano de distância. Da minha parte, não poderia estar mais contente e mais seguro de que será um regresso capaz de superar até expectativas tão altas como as minhas.

Não poderia ter havido melhor prenda de Natal. Muito obrigado, Sir Jackson.

 

 

 



publicado por RJ às 00:00
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Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011
Neon-Noir

 

Estou de regresso!

E que melhor forma haveria de regressar, do que para comentar aquele que já é para mim, O acontecimento cinematográfico do ano? Falo de "Drive", um filme que só pode vir a adquirir um estatuto de culto ao nível do de um "Fight Club".

É o noir dos tempos modernos, feito com uma coolness tão natural como as melhores deixas de um argumento do Quentin Tarantino.

 

Ainda estou a tentar absorver a dimensão daquilo que é "Drive", seguir-se-ão mais pensamentos amanhã.

 

 

 



publicado por RJ às 22:30
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Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011
Na Antártida também ninguém te ouve gritar

 

"The Thing"

 

MacReady: Why don't we just wait here for a little while... see what happens...

 

 

Está prestes a estrear um remake disfarçado de prequela de um dos meus filmes de ficção-científica favoritos. Isso não me deixa nada contente, e duvido muito que digne tamanha barbaridade com cinco euros gastos num bilhete de Cinema...

Somos atacados quase semanalmente por filmes que são remakes, prequelas ou ambos. Não o podemos negar, e também não o podemos evitar. Perante esta terrível realidade só há uma coisa a fazer: divulgar o máximo possível os filmes originais e mostrar o amor que temos por eles.

Devemos fazer isto porque este proliferar de remakes significa que a maioria dos elementos das gerações mais jovens vão crescer a adorar versões modernizadas de clássicos do Cinema, desconhecendo esses mesmos clássicos, porque é cultivada uma mentalidade que diz que o que é velho é inferior. O que é moderno, o que é o mais actual possível, é necessariamente superior às criações de décadas passadas, ameaçando reduzi-las a poeirentas peças de museu.

Clássicos como os de John Carpenter não são peças de museu. Brota deles uma vitalidade superior à maior parte dos filmes dos anos 2000, o que aumenta ainda mais a tristeza de os ver serem alvo de remakes.

 

Antes de mais é necessário esclarecer uma coisa: o "The Thing" de John Carpenter não é completamente original. O que não quer no entanto dizer que seja um remake. Inspirou-se no filme de 1951 "The Thing From Another World", que por sua vez foi inspirado pelo conto "Who Goes There?" de John W. Campbell Jr., mas em vez de refazer o filme de 1951, Carpenter fez uma adaptação mais fiel do conto original, e criou uma história, personagens e ambiente, segundo as suas próprias fórmulas. A marca pessoal do realizador é mais do que evidente em todo o filme.

 

Uma das coisas que não tenho qualquer problema em admitir em relação a "The Thing", é que é dos filmes mais assustadores que já vi, (assim como um outro filme de Carpenter, "Halloween", mas desse falarei noutra altura). Aliás, no género de terror/ficção-científica devo dizer que é o meu filme de eleição, acima do "Alien". E eu adoro o "Alien".

Os dois filmes podiam muito bem ser primos directos, e há que dar os louros a quem pertencem: o "Alien", que estreou primeiro, influenciando sem dúvida Carpenter, não deve por esse mesmo motivo ser esquecido quando se fala no "The Thing". Sem o filme de Ridley Scott, talvez não tivesse existido o de John Carpenter. Apesar do conto em que se baseou Carpenter ser muito anterior ao "Alien", as sensações transmitidas pelo "The Thing", derivam do estilo da obra de Scott.

O tema central dos filmes é essencialmente igual: claustrofobia e situação limite de sobrevivência. Um pequeno grupo de pessoas é atacado por um extraterrestre num local fechado e afastado da civilização, e obrigado a lutar para sobreviver.

À primeira vista, a claustrofobia provocada pelo "Alien" parece ser maior. O pequeno grupo de pessoas está aí à deriva numa pequena nave espacial, pelo Espaço profundo, um vazio a anos-luz de casa, enquanto que as personagens de "The Thing", mesmo estando num local remoto, têm a sorte de ao menos estarem na Terra. No entanto, a claustrofobia criada por Carpenter parece-me ter contornos que a tornam mais próxima a nós próprios, e mais perturbadora.

 

É verdade que no Espaço ninguém te ouve gritar, mas na Antártida também não. Não é preciso ir para outra galáxia para perder qualquer hipótese de contacto com outros seres humanos, podemos facilmente perdê-lo na Terra, e esta é uma das principais mensagens do filme.

Uma mensagem que, aliás, se torna ainda mais significativa no presente. Temos satélites, GPS e todo o tipo de aparelhos de comunicação altamente desenvolvidos, porém, se estas ferramentas deixam de funcionar, ficamos rendidos ao medo e à paranóia, e temos de lutar pela sobrevivência recorrendo aos nossos instintos básicos. E a tecnologia não aumentou a nossa solidariedade. No meio do gelo, debaixo de uma tempestade e sem meios para pedir auxílio, colocamos a nossa sobrevivência acima de qualquer respeito por uma vida humana que não seja a nossa.

 

Depois, a Coisa é muito, mas muito mais assustadora do que o Alien.

Temos medo do Alien como teríamos medo de um lagarto gigante. O Alien tem uma forma específica, que é nojenta e sanguinária, sim, mas ainda assim tem uma forma concreta. Está mais perto de seguir as leis da Natureza por nós conhecidas do que a Coisa.

A Coisa é explicada por métodos científicos pelo cientista principal do filme, mas aquilo que este ser faz, viola todas as regras da existência do Homem. Assimila e imita formas de vida para sobreviver, mas consegue também destituí-las de todas as regras naturais que as tornam aquilo que são, e corromper as normas que dão forma aos corpos, pudendo tranformar um cão ou um homem em criações macabras, saídas dos nossos piores pesadelos.

O medo que temos da Coisa é visceral, porque esta criatura é isso mesmo, uma coisa, e uma coisa capaz de se multiplicar num infinito número de visões infernais. E mais assustador ainda, é o real golpe de génio da criação deste monstro, é que apesar de ser tão bizarro, pode fazer-se passar na perfeição pelo nosso melhor amigo.

O aspecto macabro deste visitante de outro mundo é produto daqueles que são dos melhores efeitos especiais da história do Cinema, feitos mesmo "a sério", sem nada de CGIs. É uma pena que se esteja a perder a arte dos efeitos especiais físicos face aos efeitos feitos por computadores, porque por mais realista que seja um efeito especial digital, nunca tem a sensação de realidade de algo que foi mesmo feito de verdade, seja uma criatura ou uma explosão. E isso inclui até o "Avatar".

 

Dir-se-ia que "The Thing" não poderia ter nada mais assustador do que o que já descrevi. Mas tem. É o final, aquele extraordinário final.

Um dos objectivos ao deixar aqui este texto é dar a conhecer o filme, ou motivar quem não tenha sentido interesse em vê-lo. Aconselho portanto quem não tenha visto o filme, a que o veja antes de ler o resto do artigo, pois o seu final é mais eficaz se tiver do seu lado o elemento surpresa.

 

O final de "The Thing" é uma síntese de todo o Cinema de John Carpenter, do seu estilo, do seu terror, dos seus temas e avisos à humanidade. É profundamente niilista, com aquela aura de colapso inevitável da civilização que o realizador já tinha mostrado em "Escape From New York".

Ao fim de duas horas de filme, já tinha visto muitas imagens macabras capazes de me assombrar durante vários dias, mas aquilo que mais me marcou, foi o final, e nunca o esqueci. A sensação de solidão total atinge o pico no fim, e o medo também. E é tão brilhante por ser tão simples: são dois homens a falarem um com o outro, no meio de destroços e labaredas.

Muito provavelmente, um deles é a Coisa, mas não sabemos qual. Eles próprios estão desamparados, e exaustos. A imagem de cansaço que o MacReady de Kurt Russell exibe é tão humana, que se torna no ingrediente secreto que faz toda a cena funcionar tão bem. Depois da loucura porque passou, da corrida desenfreada pela sobrevivência, sentar-se e beber é a resposta natural. E foi esta naturalidade que, a par da minha admiração pela coolness de Kurt Russell, sempre me fez apostar em MacReady como o sobrevivente humano.

Porém, seja ou não MacReady o humano, existe um filme inteiro para ser contado depois do filme. Mas antes que isto dê ideias para sequelas a alguém, a eficácia do final de "The Thing" está intimamente ligada ao facto de que esta continuação é um filme que não é suposto nós vermos.

A simples sobrevivência da Coisa, coloca todo um rol de questões que me assustam muito mais do que aquela cabeça com patas de aranha. Se a Coisa sobreviveu, é provável que consiga chegar à civilização e que provoque uma devastação sem fim na Terra.

E que resposta é que Carpenter dá a isto? Novamente a naturalidade de MacReady: não podemos fazer nada a não ser recuperar algumas forças, e esperar para ver o que acontece. E o que acontece, acontecerá na nossa imaginação, assumindo a forma dos nossos medos pessoais.

 

Espero que se um dia a civilização acabar mesmo, este seja um dos filmes que sobrevive à destruição, para dar a conhecer a possíveis visitantes de outros mundos, a genialidade de uma das nossas maiores artes.

 

 

10/10

 

 

 



publicado por RJ às 23:18
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Domingo, 23 de Outubro de 2011
Reacção de Kurt Russell ao remake do "The Thing"

 

Como eu o compreendo...

 

 

 


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publicado por RJ às 23:25
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Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011
O triunfo da luz

 

"Midnight in Paris"

 

Adriana: That Paris exists and anyone could choose to live anywhere else in the world will always be a mystery to me.

 

 

Woody Allen já foi brilhante muitas vezes, de muitas maneiras diferentes. Já foi cómico, no sentido surreal e intelectual do termo, já analisou as idiossincracias da sociedade e dos seus habitantes neuróticos, já mostrou a face trágica dos relacionamentos, e já foi nostálgico. Sou fã de todas essas suas facetas, mas Allen nunca foi tão mágico e tão luminoso. E mais do que isso, uma obra sua nunca significou tanto para mim.

Já ganhou Óscares, e mesmo não sendo um realizador apreciado entre sectores demográficos muito alargados, o seu contributo à sétima arte está mais do que reconhecido. Com todos os triunfos aparentemente já conquistados, Woody Allen podia reformar-se e viver tranquilo à custa de velhas conquistas, seria o comportamento expectável. Ninguém diria que seria agora que iria produzir a maior das suas obras-primas.

Como é que isso foi possível? Simples. Porque apesar da atitude descontraída em relação ao que faz, o Cinema é aquilo que nasceu para fazer, e irá continuar a fazê-lo com uma paixão incansável.

  

Já simpatizei anteriormente com a personagem típica de Allen, e as dúvidas existenciais que foi expondo ao longo da filmografia do realizador. Porém, as dúvidas àcerca da finalidade da existência são algo com que todos nos identificamos, e são muito fáceis de ter. Não é difícil constatar que não há um sentido para a vida, que a existência do Homem é fruto do acaso ou que o ser humano tem falhas na forma como se relaciona entre si que provavelmente nunca irá contornar. Também não é difícil encontrar um sentido para a vida. Há imensas respostas, e são-nos atiradas à cara diariamente, tanto por livros de ajuda espiritual ou religiões mais ou menos sérias, como por anúncios de televisão. O que é mesmo difícil, é agarrarmo-nos a uma resposta, e construirmos um sentido para nós e para os outros a partir dela.

É esse o grande tema de "Midnight in Paris".

 

Mais do que simpatizar, identifico-me com Gil. Identifico-me com ele porque também sonho com a escrita, porque também adoro andar pelas ruas das cidades, tanto de dia como à noite, também vejo uma beleza refrescante quando esses passeios são feitos à chuva, e também me sinto diversas vezes perdido no tempo e no espaço. Partilho daquele sentimento nostálgico por uma época de ouro perdida algures no passado, e uma das minhas épocas de eleição são também os anos 20.

Gil é felizardo o suficiente para encontrar uma passagem para essa época de sonho, e além dos seus artistas de eleição, como Scott Fitzgerald e a sua esposa Zelda, Ernest Hemingway, Salvador Dalí e Cole Porter, conhece Adriana, a encarnação feminina perfeita daquele tempo, e não podia haver uma melhor Adriana que Marion Cotillard, a actriz mais bela da actualidade. Cotillard é abençoada com a aura de encanto de uma musa perfeitamente fora do seu tempo, o que a torna na personificação ideal de uma beleza distante e quase inatíngivel.

 

Graças ao talento de Allen para dar em pequenas frases e pequenos momentos uma grande dimensão às personagens, os heróis de Gil não são simples caricaturas. Só que também não são um retrato fiel, puro e duro, daquilo que foram estas pessoas na realidade. Um retrato assim teria de mostrar tanto o preto como o branco das suas vidas, assim como as áreas cinzentas da sua personalidade, e este é um retrato de um fã. Tem os seus alicerces na realidade que se conhece do período de vida destas celebridades em Paris, construindo a partir daí um retrato baseado na forma como Gil, e qualquer fã, as vê e como idealiza que fosse a sua companhia.

 

Esta personagem interpretada por Owen Wilson tem traços claros de Woody Allen, contudo é muito diferente do protagonista clássico do realizador. A "personagem de Woody Allen", que o próprio Woody Allen tantas vezes interpretou, intelectualizava demasiado a realidade, é alguém para quem a vida não faz sentido, enquanto que Gil é alguém que tem um sentido para a vida, só que este se encontra perdido numa época diferente.

Não é por acaso que a figura do intelectual moderno é satirizada neste filme através do pedante que Michael Sheen interpreta. Allen submete a perspectiva intelectual e estritamente racional de olhar o mundo, a uma paixão impressionante pela vida. Já retratou fielmente as batalhas existenciais dos intelectuais nova-iorquinos, mas esse era o tempo de "Annie Hall", um tempo que precisava desse olhar intelectual. O nosso presente precisa de redescobrir o amor pela sociedade humana seja de que maneira for, e Woody Allen apresenta-nos uma opção, redescobri-lo através de Paris.

Gil ama a vida porque ama Paris, tanto a do passado como a do presente, uma cidade que é um monumento ao que a sociedade humana é no seu melhor.

 

Os parentes mais próximos de "Midnight in Paris" são outras duas cartas de amor recheadas de nostalgia, "The Purple Rose of Cairo" e "Radio Days". Na primeira há um amor impossível entre uma personagem de Cinema e uma fã, na segunda, Woody Allen retrata o crescimento acompanhado pela rádio. Juntamente com esta viagem a Paris, são os momentos em que Allen se confessa comovido pelo passado, mas antes de Paris, o passado era apenas um bem perdido. Outro parente é "Manhattan", por já ter aí mostrado o amor por uma cidade como âncora da existência, e agora em Paris, adiciona esse amor ao sentimento de nostalgia, para criar o seu filme mais assumidamente bonito.

 

A nossa época precisa de um incentivo a abraçar a alegria da vida, e mais importante, precisa de um incentivo que ao contrário dos anúncios publicitários e dos finais cor-de-rosa, soe a algo verdadeiro. E "Midnight in Paris" tem uma joie de vivre impressionante, mas honesta. A realização final de Gil é amarga, mas necessária para que ele, e nós, saibamos como retirar alegria do nosso descontentamento com o tempo em que vivemos.

À meia-noite em Paris, triunfa a luz. O sonho da época de ouro ilumina-nos o presente, sempre que este é insatisfatório, porque é por isso que sonhamos com outros tempos. Precisamos de encontrar o melhor recanto possível do planeta, a nossa Paris, e depois sonhamos, para que esses sonhos dêem ao mundo que nos rodeia o que nele falta para se aproximar do nosso paraíso pessoal.

Acredite quem estiver a ler, que raramente me senti tão iluminado na escuridão da sala de Cinema. 

 

 

10/10

 

 

 



publicado por RJ às 02:24
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